Blog do Cético


MARTÍRIO DO ORGULHO ALHEIO

Estava demorando para que eu falasse de Olimpíadas por aqui, mas é que nada de tão relevante havia acontecido nos jogos que merecesse menção.E quando finalmente aconteceu, não foi nem tanto pelo esporte em si, mas pela reação que ele despertou.

Aconteceu na quinta-feira, quando Brasil e Rússia disputavam uma vaga para a final do vôlei feminino.As brasileiras venceram os dois primeiros sets, perderam o terceiro, e no quarto, colocaram 24 a 19 no placar.Embalada no espírito de já ganhou, a Pátria Amada, Mãe Gentil, começou a comemorar antes da hora.Pois bem, as russas foram buscar o resultado e venceram o set que lhes garantiu a sobrevivência no jogo.No tie-brake, quase a mesma história: 13-10 a favor, e lá foram as russas, vibrantes como nunca vi igual numa partida de vôlei, virar o resultado e fechar o set em 16-14, e o jogo em 3-2, numa virada que deixou-nos todos incrédulos.

“Faltou vibração”, “faltou tranqüilidade, “faltou força”, enfim, cada um se sentiu no direito de dar palpite a respeito do que fez a massa desandar quando estava quase pronta, e 99% desses palpiteiros assistem ao vôlei no máximo cinco vezes em um ano, desconhecendo muitas vezes o que seja uma china, por que o líbero se veste diferente, ou para que serve aquela linha traçada no meio de cada quadra.Invariavelmente, todas essas explicações vinham em tom imperioso de cobrança, essas pessoas que mal conhecem os fundamentos básicos do esporte vociferando raivosas contra as jogadoras que desperdiçaram uma vitória que parecia certa, como se as garotas tivessem a obrigação de ganhar por causa delas.

A estes eu digo, simplesmente: “que tal reconhecer que a Rússia foi melhor?”.Se a vitória tivesse sido brasileira, sob estas mesmas condições, todos enalteceriam a garra e a vontade de nossas jogadoras, e o mérito delas de ir buscar um resultado quando tudo parecia inevitavelmente perdido.Mas como elas foram derrotadas, caiu sobre seus ombros a responsabilidade inteira da derrota, sendo martirizadas pela mídia por não haverem conseguido o resultado.

Chega a ser interessante esse pensamento: se elas ganham, temos que admitir e comemorar o mérito delas, porque nos sentimos como vencedores.Mas se elas perdem, não podemos admitir que nós ou o adversário somos responsáveis: são elas, unicamente elas, as culpadas pelo infortúnio.Não podemos reconhecer o mérito do adversário, porque temos que preservar o nosso orgulho: somos os melhores, se ganhamos, é porque jogamos bem, se perdemos é porque jogamos mal, nunca por mérito do oponente.

Eu preferi fazer uma análise diferente: não crucifico as meninas, assisti à partida e vi que elas deram o melhor de si. É muito mais honroso para elas terem perdido para um adversário que se mostrou mais forte e capaz de jogar sob a pressão de não poder errar.O time russo é mais experiente, quase todas aquelas jogadoras ganharam a prata nas Olimpíadas de Sydney, e as atacantes Sokolova e Gamova se agigantaram ainda mais do que permitia suas já colossais estaturas nos momentos decisivos, sem contar com a líbero Sheshekina, que pegou todas no fundo da quadra, justamente quando precisava pegar para manter sua equipe viva.

Isso me lembra uma historinha que envolve o Isaac Asimov, grande cientista e um dos pais da ficção científica: certa vez ele, que era judeu, ouviu um outro companheiro de etnia dizer-lhe que os judeus eram menos de 1% da população mundial, mas já haviam ganho 20% dos Prêmios Nobel.”Isso me enche de orgulho de ser judeu”, disse o sujeito.

Asimov, cujo senso de humor era tão grande quanto a genialidade, respondeu: “e você sabia que os judeus são 2% da população americana, mas são 30% dos cafetões? Isso não te faz sentir vergonha de ser judeu?”.O outro responde: “de jeito nenhum, eu não sou gigolô, não tenho nada a ver com isso”.O gênio retruca: “então você sente orgulho das boas coisas que não fez, mas não sente vergonha das coisas ruins que também não fez? Você não ganhou Nobel, nem é cafetão. Não deve se orgulhar, nem se envergonhar”.

Este é um dos venenos mais perniciosos do nacionalismo: fazer com que as pessoas se alegrem e orgulhem com os feitos alheios, mas não faz com que elas se envergonhem com as atrocidades alheias.Com isso, ficam cegas e fanáticas, de pensamento pequeno, dispostas a cometer quaisquer barbaridades, pois a consciência coletiva a exime de suas culpas, num processo de catarse coletiva.Repudio toda e qualquer forma de nacionalismo, não tenho nada a ver com aqueles que competem na Grécia: se ganharem ou perderem, o mérito ou demérito será deles, apenas deles.Torcer para um clube até se atura, afinal uma agremiação esportiva não tem outro objetivo senão vencer no esporte.Diferente de um país, que tem poder e atribuições muito maiores, e como bem mostra a história, o sentimento de amor pela pátria foi o motor das piores atrocidades que a humanidade já conheceu.O nacionalismo matou, isso contando por baixo, mais de cem milhões de pessoas apenas no século passado.Como concordar com um ente tão bárbaro?


 Escrito por João Philippe às 16h40
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TERAPIA DOS TOLOS

Já expus de forma nada comedida neste blog meu entusiasmo e admiração pela obra dos compositores clássicos, e da mesma forma que aqui o fiz e faço, também assumo cotidianamente esse gosto no mínimo excêntrico, que não raro desperta caretas de estupor ou risadinhas maliciosas que põem em dúvida minha masculinidade.Como adoro as caretas de estupor e desprezo as risadinhas maliciosas, não é este o caso que precisamente mais me incomoda.O que desperta minha ira, de fato, não são estupefações de incredulidade, tampouco escárnios de malícia.O que me deixa intrigado, e às vezes até mesmo irado, é alguém que elogia a música clássica, dizendo que ela é “muito boa para relaxar”.

Compreender-se-ia o comentário caso este se referisse a compositores mais antigos e circunspectos, como Handel, Vivaldi ou Bach, cujas melodias comedidas e timoratas de fato inspiram sensação de tranqüilidade.Mas os que dizem isso são completos ignorantes, que acreditam ser toda a música clássica igual, sem distinção.Apenas porque ouvem algumas trilhas de compositores como os acima citados ocasionalmente em restaurantes ou recitais, acreditam as bestas que conhecem ao menos os rudimentos da música dita “erudita”.Vem-me uma vontade danada de dizer que não aprecio muito os autores das músicas “relaxantes”, embora reconheça seu talento, mas para quê dizer isso a alguém que já demonstrou nada conhecer do assunto? Mudo então o rumo da conversa.

Mas ainda me ficam martelando na cabeça alguns questionamentos: como podem as pessoas ouvir certas músicas sem se sentirem arrebatadas por suas melodias? Como pode alguém escutar a Rapsódia Húngara, de Liszt, e não sentir uma sensualidade fremente transbordando pelos poros de seu corpo? Como escutar Romeu e Julieta, de Prokofiev, ou algum concerto de Rachmaninov, sem se inundar de paixão? Possível seria escutar Chopin e não se sentir nas asas de uma deliciosa melancolia? Indo às últimas conseqüências: será mesmo possível não se sentir arrebatado pela pungente vaga de heroísmo e romantismo mítico presentes nas canções de Wagner? Ou não sentir tudo isso listado acima e mais alguma coisa ao escutar nem que sejam os primeiros acordes da soberana Nona Sinfonia, de Beethoven, fora de dúvida a maior canção já composta na história da humanidade?

Às vezes eu me pergunto: será que eu sinto a arte de forma exagerada? Sou alguma anomalia hipersensitiva num mundo anestesiado? Ainda não sei se essa capacidade de sensação maior que a média se constitui numa virtude ou num grande defeito.Talvez mais uma escutadinha em Beethoven dirima minhas dúvidas.


 Escrito por João Philippe às 00h40
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MÁGICA NO ABSURDO

Esta noite tinha eu um compromisso muito especial: era aniversário do meu amigo Ânderson, e por isso me dirigi à casa dele.Tudo correu como esperado numa festa de aniversário: comemos, bebemos, festejamos (jogamos xadrez também, mas esse é um detalhe especialmente nosso).E finalmente, nos despedimos, cada um para o seu lado, a caminho de casa.

É aí que entra o pitoresco: passava das dez da noite, e a parada de ônibus estava deserta, sem contar que caía um sereno insistente.Como a região não é lá das mais seguras, comecei a temer por qualquer coisa que me acontecesse.Tomei então uma decisão ainda mais arriscada: descer avenida abaixo até encontrar uma parada mais habitada.E o que começou como missão potencialmente arriscada se transformou em algo mágico: o vento frio do pós-chuva batia em meu corpo de cheio, agitando minha camisa e resfriando-me numa rajada benfazeja.As gotas renitentes do sereno tênue, tão pálido e timorato como se o céu naquele momento chorasse discretamente o desmazelo de sua magnificência, e reconhecia em mim, caminhando solitário naquele deserto cruzado esparsamente por apressados automóveis, o único com sensibilidade suficiente para perceber e se enlevar com seu lamento.Quando eu praticamente flutuava ao desígnio daquele devaneio, passou o meu ônibus.

Encontrava-me agora observando pela janela o evento magnífico que havia presenciado e sentido quando estava a pé.Mas ainda não estava encerrada a sucessão de idílios prazerosos dessa noite: de repente, percebo os acordes de One Of Us, para quem não lembra, uma balada pop da americana Joan Osborne que fez muito sucesso lá pela metade dos anos 90, e que me cativa pela bela melodia, a voz afinada da cantora e pela letra, a um só tempo poética e anárquica, uma provocação aos crentes em Deus, insinuando que esse que imaginam eles ser tão supremo e inacessível, talvez seja:

“...One Of Us

Just a Slob Like One Of Us

Just a Stranger n A Bus

Trying Make His Way Home”

E embalado no belíssimo simbolismo da letra e da melodia, recebendo o frio vento que rugia janela adentro, fechei meus olhos e deixei meus cabelos longos revoluteando ao sabor do vento e da música, novamente arrebatado por um novo devaneio.Lobão disse certa vez que nem sempre se vê mágica no absurdo.Parafraseando outro brasileiro ilustre, eu posso dizer que, sim “meninos, eu vi”.


 Escrito por João Philippe às 00h44
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O GOSTO DE DEUS

O blog do Alexandre, Liberal, Libertário, Libertino , é um blog tão bom que tenho que me controlar para não tratar aqui de muitos assuntos que ele já aborda com extrema presteza e acuidade.Quase sempre consigo, mas desta vez estou sem assunto, e o tema me parece interessante demais para deixar de ser amplamente divulgado.

Saiu na CNN a notícia escandalizante: uma garota de New Jersey, Haley Waldman, estava prestes a fazer a primeira comunhão.Só que ela sofre de uma doença que a impossibilita de comer qualquer coisa que tenha glúten, o que significa dizer que o trigo, com o qual é feita a hóstia, está completamente banido de sua dieta.Para solucionar o problema, a igreja local aceitou que ela ingerisse uma hóstia feita de arroz.A cerimônia foi realizada nos conformes e todos foram felizes para sempre, certo?

Errado.A diocese anulou o sacramento, baseada em doutrina do Vaticano, que diz que a hóstia tem que ser feita de trigo, senão Jesus não encarna na mesma e não pode ser canibalizado pelos fiéis.Recomendou à garota que ela consuma uma hóstia “com menos glúten”, ou apenas beba o vinho.A mãe da garota diz que mesmo uma quantidade mínima pode prejudicá-la, ou mesmo ser fatal, e escreveu uma carta ao Papa.A polêmica continua.

Para quem é tão supremamente eterno, onipotente e oni-qualquer-coisa, Deus até que tem umas preferências bastante humanas, não? A partir de agora estamos avisados: Deus gosta de trigo, e detesta arroz, o que talvez seja um sinal de que brasileiros e povos do oriente, que baseiam sua dieta nesse grão, estão todos condenados a perecer no inferno.Qualquer coisa, vou levar um pãozinho da padaria do seu Miranda no bolso no dia do Juízo.Talvez rolando um suborninho trigal, eu até entro no paraíso... Nietzsche dizia que não podia acreditar em um deus que não sabe dançar.Eu digo que não posso acreditar em um deus que não gosta de arroz.

Fico aqui pensando: que outras preferências e preconceitos Deus terá? Talvez a Bíblia nos possa dar algumas respostas: ele não gosta de mulheres independentes (Efésios 5:22-24), de homens que fazem a barba (Levítico 19::27), de ricos (é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus), e de outras trocentas coisas que a preguiça me impede de listar.Por isso não me preocupo com a minha salvação: a lista de preconceitos de Deus é tão grande que provavelmente toda a humanidade já está condenada ao fogo eterno.Se ele é capaz de condenar uma pessoa ao inferno por não poder ela comer trigo, ele pode condenar por qualquer coisa, e debalde são os esforços para tentar agradá-lo de qualquer modo.A não ser o pãozinho do seu Miranda, claro...


 Escrito por João Philippe às 19h23
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GUINDASTE COM VOCAÇÃO PARA BIGORNA

Procurei por muito tempo uma analogia interessante para escrever este texto, mas não me ocorria nenhuma, e por isso tardei tanto a escrevê-lo.Na verdade, ele é uma espécie de apêndice do meu artigo sobre as universidades públicas, só que tratando de um problema bem mais amplo.

Tudo começou a partir do questionamento que me fiz: se as universidades públicas são mesmo caras, ruins e elitistas, por que tanta gente a defende? Burrice e cegueira ideológica são apenas uma parte da resposta, percebi que havia algo de fundamentalmente mais profundo neste problema.E cheguei a uma conclusão que renderia material para uma longa tese sociológica, ou até mesmo para uma espécie de Casa Grande & Senzala do século XXI, embora dificilmente se equiparasse em grandiosidade ao magistral Gilberto Freyre.Talvez uma obra para explicar um dos aspectos fundamentais da sociedade brasileira nas últimas décadas.

Sempre li em artigos sobre capitalismo, que a classe média desempenha um papel fundamental nesse sistema econômico: é ela quem é a força dinâmica e empreendedora, que quer sempre melhorar de vida, consumir e produzir cada vez mais, funcionando como um catalisador da economia.Um país, para se desenvolver, precisa de uma classe média dinâmica e produtiva, que queira continuamente melhorar de vida.Por isso o regime comunista não dá certo: nele existe apenas uma casta de privilegiados burocratas e uma massa que tem um poder de compra muito pequeno, e poucas possibilidades de expandir esse poder.Então descobri a grande culpada pelo atraso do Brasil.Não é o FMI, os EUA, muito menos o passado colonialista. É a classe média.

Alguém já se deu ao trabalho de examinar a composição dos movimentos esquerdistas? São compostos em sua grande maioria por elementos egressos da classe média.O PT é um partido oriundo e apoiado por uma pequena burguesia.E, ao contrário dos outros países, a classe média brasileira é acomodada, ansiosa por paternalismos governamentais que a sustentem. É ela quem não deseja o fim da universidade pública e de todo esse ridículo aparelho de proteção social caro e ineficiente que o país montou na intenção de ser um Welfare State, mas que, quando funciona, atende apenas à classe média coitadinha que se acha vítima, e geralmente é apenas uma maquina de se gastar dinheiro com serviços de péssima qualidade.

Por isso não acredito nos discursos da esquerda: quando ela fala de justiça social e ajuda aos pobres, ela fala de ajudar não os pobres, mas a classe média, que se acha pobre vítima desses porcos capitalistas neoliberais.Em outros lugares, a classe média se superestima, gosta de afirmar ter mais poder de compra do que realmente possui, e deseja aumentar esse poder.No Brasil, a classe média com freqüência se auto-intitula “pobre”, vejo isso inclusive em minha casa, onde meus pais de vez em quando dizem que somos pobres.Ora, faça-me o favor! Se estivéssemos na Noruega, de fato, seríamos pobres.Mas num país onde 20 milhões de pessoas passam fome, quem tem duas televisões, um videocassete e um computador não pode se dizer pobre, é até uma afronta ao sofrimento de milhões de pobres aboletados em favelas.

A inveja nem sempre é algo mau: nos países avançados, é a inveja dos ricos que leva a classe média a impulsionar a economia como forma de melhorar de vida.Aqui ela envenena a classe média local, que deseja uma revolução para poder destruir os ricos, que conseguem ser o que ela até deseja ser, mas como é atávica e invejosa, jamais o conseguirá.Enquanto não chega o dia em que conseguirá derrotar aqueles que conseguem realizar o que ela não consegue, a classe média brasileira se contenta com migalhas atiradas por um estado assistencialista, que sustenta sua preguiça de trabalhar e de pensar, desejando um emprego público onde possa se escorar para parasitar o Estado.Enquanto a classe média de outros lugares sonha com uma sociedade dinâmica como a americana e férias no exterior, a brasileira sonha em viver numa União Soviética rediviva, e passar eternas férias na ilha-senzala de Fidel Castro.Os sonhos dizem bastante a respeito daquilo que somos.Com um ideal de vida desses, como pode a classe média tupiniquim prosperar? Ela só pode é tentar empurrar o país para baixo, como fez na época de Jango, quando tentou estabelecer o Estado populista de assistencialismo de meia-tigela, e o que conseguiu foi deflagrar a conjuntura que desembocaria em uma ditadura de vinte anos.

Por isso digo, caro leitor, não vote em candidatos de classe média.Vote na elite.Agindo de forma espúria para resguardar seus próprios interesses, a elite beneficia mais o país do que as ações socializantes desastradas da classe média, que só empurram o país para a recessão e despertam a chama do autoritarismo.A classe média brasileira deveria ser um guindaste, puxando a economia para cima com seu dinamismo.Termina funcionando como uma imensa bigorna, empurrando o país para baixo com seus delírios comunizantes e seu choramingar vitimista.


 Escrito por João Philippe às 00h38
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DUAS ESCOLAS DE VIDA

É época de eleição; a época mais fácil de ver candidatos dizendo que a formação familiar tradicional e a presença de religião na vivência familiar são importantes para criar pessoas saudáveis e respeitadoras dos princípios éticos.Minha mãe, como católica, vive enaltecendo as benesses da criação que ela e os irmãos tiveram, de religiosidade férrea e autoridade absoluta dos pais, cujos direitos sobre os filhos só não compreendiam os de vida e morte: fala ela com orgulho dos espancamentos e torturas psicológicas que seus pais, tios e avós lhes impingiam, chegando a ponto de impedir que eles brincassem com outras crianças, “para não se misturar com o povo”, e de visitar até mesmo os primos.

Sempre tive sérias dúvidas a respeito da eficácia de uma criação tirânica como a que eles tiveram, onde aprendiam a temer o pai e Deus como verdugos implacáveis, sempre a postos para lhes infligir as piores torturas.Essas dúvidas se dissiparam quando comparei a educação familiar deles com a de uma amiga de minha mãe, sendo as duas famílias do mesmo lugar.Ao contrário da família de minha mãe, a da amiga era extremamente desprendida da religião: a matriarca, inclusive, proclamava com tranqüilidade seu agnosticismo.Iam à igreja quatro vezes por ano na época dos festejos da padroeira, por mera formalidade.Diga-se também que nunca recorreram a métodos bárbaros de punição aos filhos; nenhum deles relata, muito menos com o orgulho embutido no testemunho infantil de minha mãe, rigores tirânicos sequer próximos dos que meu avô utilizou corriqueiramente com os filhos.Dois modelos de educação diametralmente opostos, pois: um de rigor autoritário, que cultiva a imagem dos pais e de Deus como capatazes dispostos a punir cruelmente a mínima falta, e outro baseado na ausência de religiosidade, sem traços de autoritarismos tirânicos.

Os resultados podem ser comparados: meus avós tiveram dez filhos.Desses, apenas três concluíram curso superior, em licenciaturas (minha mãe incluída), e todos o fizeram tardiamente.As mulheres, à exceção de minha mãe, viraram donas de casa completamente dependentes dos maridos, e até mesmo do pai.Dos cinco filhos, três se envolveram com drogas, sendo que um deles já cumpriu pena por tráfico, furto e posse ilegal de arma.Outro é alcoólatra contumaz, que a cada farra ameaça o irmão (e vizinho) de morte.E o outro é político, daqueles bem fisiologistas, interessado apenas em se promover.

E na outra família, que teve uma educação “atéia”, por assim dizer? São quatro filhos: um é auditor do Banco do Brasil, outro é dentista e diretor de hospital, uma é formada em economia e tem dois supermercados, e a amiga de minha mãe é promotora de justiça.Todos bem resolvidos na vida, nunca se envolveram com negócios ilícitos, e se mantém até hoje distantes da religião.

Será preciso ainda discutir qual modelo de educação foi mais eficiente? Tudo que meu avô conseguiu com seu despotismo foi dois filhos viciados em drogas, um que além de viciado é criminoso, um alcoólatra, e mulheres modelo anos 50, sendo que quase todos ainda são sustentados direta e indiretamente por ele.É um modelo perfeito do completo fracasso de seus métodos educacionais.E depois ainda há quem queira me dizer que a autoridade familiar e a vivência religiosa são boas para a educação das crianças.Vejo inúmeros exemplos que dizem exatamente o oposto.Prefiro ficar com o que me dizem os fatos.


 Escrito por João Philippe às 00h15
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INCOMPREENSÕES

Não consigo entender o funcionamento da vontade dos leitores deste blog de comentar: às vezes escrevo um post chocho sobre política ou outra obviedade qualquer, e lá vem dois ou três comentários.Já o Entre Duas Tentações, o texto mais literário e um dos melhores que já escrevi aqui, foi solenemente ignorado.Comentem; se não por mim, ao menos em respeito àquele perfume doidejante que procurei descrever tão bem a vocês; ao menos em consideração à moça, que se viu aqui tão lisonjeiramente citada.

 Escrito por João Philippe às 00h14
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HERESIA, HERESIA!

A abertura era grandiosa.Ao rufar de tambores, acendiam-se as luzes dos holofotes, e após mais algumas retumbantes batidas, principiava a ressoar os portentosos acordes iniciais de O Fortuna, de Richard Wagner.Claro que, ao ouvir a música do gênio alemão, algo fremiu dentro de mim e esbugalhei meus olhos na direção da TV, para saber de que se tratava.Anunciado pela música do autor de O Anel dos Nibelungos, não podia ser nada menos que extraordinário.Então os holofotes centram foco e o mistério termina: o que estava a ser anunciado era um festival...De Axé!

Mais uma dessas infindáveis micaretas, que são como prostitutas baratas: encontra-se uma em cada ponta de esquina.Com os mesmos “artistas” e “bandas” que vêm todo ano para festas do tipo.Ou seja, nada de novo.Não entendo como existem pessoas capazes de pagar 400 reais para ver as mesmas atrações duas ou três vezes no ano, que sempre tocam as mesmas músicas e com o mesmo ritmo.Nada pessoal contra aqueles que gostam desses tipos de música, mas esse comportamento denota no mínimo falta de certa quantidade de massa encefálica.Até minha amiga que gosta desse tipo de música concorda comigo: ela é presença certa nesses pagodões de mesa de sábado à noite a 3 reais, mas se confessa incapaz de pagar muito mais do que isso para ouvir o mesmo tipo de música.

Como o dinheiro gasto não é meu, e tampouco tenho o direito de determinar em que as pessoas gastam o que é delas, não é esta questão que me interessa.A verdadeira blasfêmia é usar a divina música de um gênio como Wagner na propaganda desse tipo de evento.Onde será que vamos chegar? Jazz de Louis Armstrong anunciando festival de forró? Músicas do Iron Maiden em propaganda de festival de reggae? Ou—Suprema apostasia—Acordes da Nona Sinfonia de Beethoven abrindo propaganda de show do MC Serginho? Aonde vamos chegar, ó deuses e deusas da música? Wagner deve estar se estorcendo no túmulo ante tão estrondoso desrespeito.Como nada posso fazer, nada me resta senão dar ao gênio alemão o verdadeiro reconhecimento à sua magnificência.Estou ouvindo a Cavalgada das Valquírias em sua homenagem.Depois de ouvi-la, quem sabe eu consigo escutar O Fortuna de novo sem me revoltar.


 Escrito por João Philippe às 00h07
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ENTRE DUAS TENTAÇÕES

Terça-feira ainda corria eu contra o tempo para terminar de ler Contraponto.Dentro do ônibus lá ia eu fixo e concentrado na leitura, enquanto era embalado pelo balançar do veículo, e sentindo entre os dedos as últimas páginas que ainda havia por serem vencidas.O olhar percorria as linhas, nervoso e atento.Até que...

Até que fui despertado por outra sensação.O cheiro levemente mofado do livro antigo de biblioteca cedia lugar a outro que, em meio ao calor das duas da tarde, recendia criminosamente provocante: era de lavanda.De uma garota que sentara logo à minha frente, com enormes e espalhafatosos brincos cor-de-rosa na forma de estrelas que lhe realçavam ainda mais um certo caráter infantil na beleza que fulgurava cândida por entre os olhos verde-oliva que ocasionalmente se voltavam para observar sei lá o quê.

Forças inconcebivelmente excitantes passaram a lutar dentro de mim: de um lado, a tentação de terminar logo o romance que tanto me havia prendido durante quase um mês, e a outra, a de olhar fixamente para aquela beldade de cabelos dourados e de perfume picante-adocicado que exercia um efeito quase narcótico quanto mais fortemente exalava, propalado pelo forte calor de início de tarde.O mais engraçado era que eu lia naquele momento uma exortação de Mark Rampion, um dos personagens, que recomendava ás pessoas serem menos intelectuais e mais humanos, darem mais atenção aos seus sentidos corporais que aos mentais.E era incrível perceber que no meu íntimo, naquele exato instante, aquela mesma batalha à qual ele se referia estava sendo travada, e eu procurava resistir na leitura, mesmo que Rampion estivesse a recomendar o exato oposto.Nunca havia enfrentado situação tão bizarra: um romance ordenava que eu parasse de lê-lo para usufruir os prazeres dos sentidos ordinários.E eu não pude resistir: obedeci e mergulhei de vez naquele perfume inebriante e mágico que embebia o ar de certa fantasia adocicadamente poética.


 Escrito por João Philippe às 00h39
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FALSO ALTRUÍSMO

Um dia desses minha mãe catou por aí um panfleto propagandístico do PSTU, onde o partido expõe suas propostas para a prefeitura de Teresina, para a qual tem uma candidatura lançada.Li e reli com avidez o pastiche, pois me diverte sobremaneira o festival de equívocos e contradições presente nestas peças de propaganda.Começa com um texto longo que fala sobre a ALCA, o FMI e a dívida externa, falando ainda na “traição” do PT às causas dos trabalhadores.Enfim, fala de tudo, menos de questões relacionadas à cidade de Teresina.Quando o faz, lança as propostas estatizantes e absurdas de sempre, tão repetitivas e ridículas que não vale a pena falar sobre elas aqui.

O fato de me dignar a dedicar algumas linhas a essa gentinha de pensamento sub-reptício é um fato interessante que pude reparar.O panfleto exibe curtas biografias de seus candidatos a prefeito, vice e vereadores, sempre, é claro, enfatizando que os candidatos são ardorosos defensores das causas dos trabalhadores.Como costumo não ter muita coisa para fazer (tanto que consigo atualizar esse blog quase diariamente), resolvi conferir as profissões de cada um dos candidatos que dizem defender a classe trabalhadora e propugnam que os ricos devem pagar pela crise (o preço eles não estabelecem qual é, mas a julgar pelo que fizeram na Rússia e na China, não duvide que seja a própria vida).

O candidato a prefeito e a vice são integrantes do sindicato dos bancários, trabalhando nesta profissão desde a época em que ser bancário tinha quase o mesmo status de ser médico, ou seja, são integrantes da classe média abastada, pois ainda são professores universitários.Os candidatos a vereador, a mesma coisa: um é professor do município (que paga bem), do estado (que paga mal) e de faculdade privada (que paga muuuuito bem!), outros dois também são professores que possuam vários empregos, e outra é funcionária da Agespisa, conhecida por ter os melhores salários e os maiores índices de corrupção das instituições estatais piauienses.

Resumindo: nenhum dos digníssimos candidatos pode se dizer pobre.Ou podem, afinal de contas, o critério de pobreza no Brasil é bizarro: a classe média, em outros lugares do mundo, deseja elevar seu padrão de vida, quer ser vista como rica, emergente.A brasileira se autoproclama pobre e esfarrapada, para poder receber proteção social do governo.Exatamente por isso a militância socialista se divide em dois grupos: alguns de classe média alta e ricos que se sentem culpados por terem nascido tão favorecidos, e o grosso é de integrantes da classe média, que defendem os programas estatizantes porque desejam passar a vida mamando nas tetas do Estado, ou parasitando os sindicatos, fingindo que lutam pelos trabalhadores.Não dá para entender o aparente altruísmo dessa gente, se dispondo a lutar pelos pobres.A única maneira de entender é sabendo que eles se consideram pobres, portanto não visam administrar para os pobres de fato, aqueles que estão aboletados nas favelas, mas sim para eles próprios, que se sentem tão pobrezinhos, coitadinhos!

No final do panfleto, ainda há duas pérolas: primeiro, eles dizem que eleições não mudam nada, que a alternativa é a revolução.Ora, mas se o único caminho viável é a revolução, por que eles gastam tempo e dinheiro se candidatando? Segundo, eles dizem que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF, para os íntimos), é um instrumento das elites para desviar recursos do “social” para pagar as dívidas com os banqueiros.Como os políticos corruptos adorariam ouvir isso! Como eram bons aqueles tempos em que era possível encher a folha de funcionários fantasmas, comprometer 90% da arrecadação e embolsar um monte de grana! É um sinal de que esse pessoalzinho pretende fazer a mesma coisa quando chegar ao poder, até porque não esqueçam: quando eles falam em governar para os pobres, eles estão falando de si próprios.


 Escrito por João Philippe às 01h22
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DEUSAS DESCOBERTAS

Há muito tempo estou perfeitamente habituado (e de certa forma satisfeito) com a pouca, ou nenhuma, atenção que a grande mídia musical dá ao heavy metal, principalmente porque não sei se me agrada a idéia da popularização do estilo.Sinto-me confortável com a idéia de pertencer a uma elite, a um grupo restrito, ao contrário de roqueirinhos estrebuchantes pseudo-revoltados que adoram escarrar o bordão “morte aos pagodeiros”, numa demonstração intolerante de quem se acha proprietário da verdade absoluta, e que almeja o dia em que todos pensem e ajam exatamente como eles.Não tenho motivo para odiar os pagodeiros, ou todos aqueles que apreciem arte ruim.Primeiro, eles nunca me proibiram de escutar o que eu quero.Segundo, se eu for odiar todos os que gostam de arte ruim, dos pagodeiros aos leitores de auto-ajuda, não farei outra coisa na vida, tão numerosos eles são.Terceiro, tenho uma amigona que não faz falta na suingueira do Terceira Via, point dos pagodeiros teresinenses, e ela é uma das pessoas que mais considero nessa vida.

Por que diabos estou falando de tudo isso, afinal? Chegamos então ao principal: a Veja, na revista dessa semana, traz uma matéria sobre as “donzelas de ferro”, referência às mulheres que conquistaram o metal, e com isso, arregimentaram hordas de fãs para o estilo, e fizeram a popularidade do mesmo entre as garotas explodir.Adorei a matéria pelo fato de desfazer o principal mito que envolve o heavy metal: o de que seria um estilo misógino e machista, onde apenas homens produzem e consomem; a matéria mostra que essa realidade pertence, definitivamente, ao passado.Vou ainda mais longe: o heavy, hoje, é o estilo com maior presença feminina do rock, e da música como um todo.Não conheço uma banda de pagode ou de reggae que tenha uma mulher sequer, e contam-se nos dedos as de pop e rock tradicional que dão espaço a representantes do belo sexo.Já bandas de havy com presença feminina existem aos montes.Nightwish, Evanescence, Lacuna Coil, Nightwish, After Forever (as citadas na matéria), Therion, Theatre Of Tragedy, Within Temptation, Edenbridge, The Sins Of Thy Beloved, Lacrimosa... São tantas que existem muito mais do que apenas essas listadas acima.

Isso é bom para o estilo? Lógico! Mas não só por aumentar a popularidade: a meu ver, a principal virtude dessa “invasão” feminina é trazer novos tons de voz e novas possibilidades líricas e musicais para o heavy, além de acabar com a misoginia que imperava nos primórdios.As variações de estilos e tendências, e a diversidade sonora das bandas aumentaram muito desde que, na metade dos anos 90, as primeiras experiências nesse sentido começaram a ser feitas.As mulheres trouxeram muito mais que rostos e vozes bonitas: catalisaram uma grande variação e fusão de estilos, e experimentalismos musicais antes inimaginados se tornaram possíveis.Os músicos viram que tinham à sua disposição toda uma gama de possibilidades artísticas antes indisponíveis, e as exploraram tanto quanto puderam.O resultado aí está: o heavy é mais diversificado, musicalmente rico e popular do que nunca o foi na sua história.Uma dádiva que as mulheres a ele concederam, continuarão a fazê-lo.

Nunca simpatizei muito com a idéia de colocar fotos neste blog, por ter medo de ser confundido com aqueles blogs pueris de template rosa-shocking, pessoas ki ixcrevem axxim, letras de músicas melosas e fotos da última balada com os amigos.Mas creio que não faz mal mostrar fotos de algumas dessas mulheres que deram ao metal uma vida nova e um leque infindável de possibilidades artísticas.Abaixo, as que eu considero mais talentosas:


Floor Jansen, do After Forever, a minha preferida.



Cris Scabbia, do Lacuna Coil.



Tarja Turunen, do Nightwish, cujo último CD vende horrores (imagine se fosse tão bom quanto os primeiros...).Queria por uma foto de show, mas todas eram grandes demais e excediam o limite da mensagem.Fiquemos com essa mesmo.



Sharon Der Adel, do Within Temptation, uma ótima banda que, infelizmente, anda parada, por causa de projetos paralelos de seus integrantes.

Pronto, cometi o pecado: coloquei as imagens.Mas não se acostumem, essa é uma excecão raríssima, que custará a acontecer novamente.Fotos minhas então, nem pensar! Nem insistam, não quero ter o desprazer de recusar.

 Escrito por João Philippe às 17h32
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O TIRO SAIU PELA CULATRA, FIDEL!

Quando se fala em ditaduras, geralmente só se ouvem notícias desagradáveis.Mas o senso de humor é algo universal, e é mesmo a única coisa que resta a um povo que perdeu a sua liberdade.Sem contar que as ditaduras carregam em si um componente ridículo por excelência, pois ditadores costumam ser pessoas com ridículos sonhos de grandeza e megalomanias imbecilóides, além de se cercarem de uma corte de bajuladores.

Falo de uma matéria veiculada na Folha, que menciona um caso claro do que expus no parágrafo acima.Fidel Castro, assim como outros esquerdistas do mundo todo, se encantou com as diatribes, algumas sensatas, outras sensacionalistas e absurdas, que Michael Moore dispara contra o presidente americano no seu último documentário, Fahrenheit 9/11.Tanto que resolveu usar o filme para se promover e tentar fortalecer seu regime: disponibilizou exibições gratuitas da película em diversas salas de cinema do país.

O povo, atendendo à convocatória do comandante, compareceu em peso para assistir ao documentário.E todos saíram das salas de cinema maravilhados, como criança no dia em que experimenta chocolate pela primeira vez.Fidel não poderia estar mais feliz, certo?

É aí que entra a parte irônica, e justamente por isso, engraçada da história.Os cubanos saíram, de fato, encantados com o filme.Mas não com as críticas pesadas contidas nele ao atual governo americano.Os cubanos estavam encantados com a possibilidade de se fazer um filme para falar mal do presidente de seu país, e não ser duramente punido por causa disso! Sentiam os cubanos um encantamento infantil com aquela doce possibilidade, como a criança pobre que se enleva com a possibilidade que tem a criança rica de comer chocolate quando quiser.A criança rica se comove constrangida, pois teria que dizer à pobre que existem muito mais coisas que se podem fazer com dinheiro do que meramente comprar chocolates.Da mesma forma, se encantam os cubanos, sem saberem, coitados, que existem muito mais coisas que se pode fazer com liberdade do que um documentário sensacionalista para disparar invectivas contra o governo.O que era para ser motivo de júbilo para o regime, terminou provocando um sentimento constrangedor no governo de Havana.

Por este exemplo podemos ver a clara diferença que existe entre as democracias e ditaduras, entre Estados Unidos e Cuba.Michael Morre achincalha, defenestra, pisa no governo de seu país, e é alçado à categoria de popstar, vive nos maiores canais de tevê dando entrevista em horário nobre, seu documentário é exibido em milhares de salas e está faturando horrores, seu livros são campeões de venda e não esquentam lugar nas livrarias.Em Cuba, o jornalista Raul Rivero, para citar apenas um entre muitos, é considerado um opositor moderado de alguns aspectos do regime castrista.O que ele ganhou do governo? Proibição de seus livros e de seus artigos na imprensa e uma reluzente sentença de vinte anos de prisão, a mesma pena que recebem autores de homicídio qualificado.Definitivamente, um exemplo vale mais que mil palavras.


 Escrito por João Philippe às 17h27
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GERAÇÃO ENTEDIADA

Meu roteiro turístico pela Inglaterra do Entreguerras está rendendo reflexões interessantes e revelações surpreendentes, que me levam ao riso com freqüência.Quando ouço minha mãe e sua trupe de católicos conservadores desancarem a nova geração como “distante da religião” e “excessivamente preocupada com prazeres”, faço força para não irromper em constrangedoras e inconvenientes gargalhadas.

Por que não concordo com esta visão? Pelo simples motivo de estar conhecendo a Inglaterra de oitenta anos atrás, e ver que havia uma geração de adultos entre os 20 e os 30 anos muito menos religiosa e mais obcecada pelo prazer do que a atual.A intelectualidade inglesa da época é retratada por Huxley como extremamente secularizada e prazenteira, porém tediosa em grau elevado, é bom que se diga.A descrença no valor do progresso como resultado da disciplina do trabalho e da vida social era patente após uma guerra sangrenta, provocada exatamente pela ganância do progresso.E aí entram os tipos que rompem com o pensamento positivista da belle époque: uma ninfomaníaca, um artista libertário, um idealista frustrado, um intelectual tentando ser libertino, uma esposa virtuosa tentando ser adúltera...

Todos sentem a necessidade de gozar os prazeres mundanos, desprezando as proibições morais e religiosas que se levantam.Mas não conseguem se libertar de uma herança cultural automatizada.Ao buscarem o prazer, automatizam-no, e dão o primeiro passo rumo ao tédio.Olhando para os personagens de Contraponto, não é difícil compreender como as libertinas gerações de intelectuais dos anos 20 e 30 deram lugar aos entediados e angustiados existencialistas das décadas seguintes, que mergulharam no absurdo, na tentativa de por meio dele escaparem desse tédio.

E chegamos aos dias de hoje.Nossa geração de início de século não é desiludida com um modelo anterior, como a do entreguerras, nem angustiada e existencial como a do pós segunda guerra.Somos exatamente o farrapo que restou desse século de continuadas experimentações psicotrópicas realizadas com o objetivo de se encontrar a solução para os dilemas existenciais da humanidade.Primeiro os estimulantes da euforia nos anos 20 e 30, o álcool e a cocaína.Depois, a angústia do absurdo, personificando uma sensação de fuga em exercícios mentais alucinógenos como o LSD e a maconha, ou narcóticos como a heroína.

Depois de todo esse pesado consumo de drogas filosóficas, estamos imersos em uma profunda ressaca intelectual.Por isso a produção artística dos dias de hoje é medíocre.Tomamos ecstasy para tentar rebater o efeito do prolongado uso de psicotrópicos mentais, e a pílula do amor representa exatamente o tipo de pensamento vaga e contraditoriamente hedônico que, confusos, levantamos como bandeiras de uma geração, sem percebermos que nossas pernas fracas cambaleiam sob o peso de se sustentar algo que mal se compreende.

P.S. Falando em Geração Perdida, qualquer alma caridosa que queira me presentear no vindouro dia 2 de setembro, data na qual completo vinte e uma primaveras neste campo poeirento que é o mundo, com o romance Este Lado do Paraíso, de Scott Fitzgerald, me fará muito feliz, além de contribuir com meus estudos sobre esta época, que tendem a se aprofundar cada vez mais.


 Escrito por João Philippe às 01h01
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BARBÁRIE, VOLVER!

Um tribunal de apelações em Londres decidiu: serão consideradas legítimas pela justiça britânica as provas obtidas sob tortura contra acusados de terrorismo, desde que a tortura não seja praticada por agentes do governo britânico.

Finalmente, eles conseguiram! Depois de séculos de avanços penosos rumo à construção de uma sociedade com leis mais humanas, eis que começamos a trilhar o caminho de volta.Parabéns para os cristãos fundamentalistas, que sempre sonharam em trazer o mundo de volta à Idade Média, e fazer do Malleus Maleficarum o código penal em vigor.Parabéns para simpatizantes do comunismo e do nazismo, ansiosos que estavam por reviver seus Auschwitzes e Kolymas.A civilização começa a ir pelo ralo neste momento.Um romano do século IV deve ter pensado a mesma coisa quando Constantino tirou o cristianismo da ilegalidade.Antevejo uma nova era das trevas que começa hoje.Tragam as velas e ponham o luto, pois eu farei vigília pela civilização moribunda.


 Escrito por João Philippe às 01h29
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MUDANÇA TEMPORÁRIA

Existem muitos motivos que levam alguém a ler ficção, mas creio que um dos mais excitantes seja o conhecer de outros lugares, culturas e épocas.Claro que literatura vai muito além, envolve idéias e estética, e ainda o conhecimento de novos e complexos seres humanos, pois nenhum livro, por melhor que seja sua ambientação de época, é bom se não tem bons personagens, assim como um bom filme não se faz apenas com bons cenários, mas, sobretudo, com bons papéis e atores.

O aspecto puramente turístico de um romance sempre foi considerado um efeito colateral da ficção, e sua apreciação uma degenerescência intelectual, uma perversão simplista e fútil, estando para a literatura como a pornografia está para o erotismo.Chega a soar como heresia alguém dizer que vai ler Crime e Castigo porque, entre outras coisas, deseja conhecer a sociedade russa da metade do século XIX.Claro que essa não pode ser a motivação única, pois os dramas humanos do romance são bem mais interessantes do que a brilhante caracterização que Dostoievski faz dos tipos sociais da época, das donas de casa da pequena burguesia às classes decadentes, passando por conservadores de meia idade e jovens anarco-niilistas ateus e revoltados.Mas não se pode negar que acompanhar os aspectos da sociedade e do país naquela época não deixa de ser deleitoso, como fazer uma viagem turística a custo mínimo, e muito maior do que qualquer uma que possa ser feita de corpo presente, pois se migra não apenas para lugares diferentes, mas para épocas passadas que não mais voltarão.

Sempre que vou à biblioteca escolher um novo livro penso neste aspecto: como estou terminando de ler Contraponto, de Aldous Huxley, ambientado na Inglaterra do final dos anos vinte, fui logo tratando de escolher outro, para o caso de terminar o primeiro antes da data de ir novamente à biblioteca.Pensei em As Vinhas da Ira, de Steinbeck, mas não estou interessado no momento em viajar para os Estados Unidos da época da Grande Depressão.Olhei para alguns volumes de Dickens, mas a Inglaterra vitoriana tampouco me tenta agora.Quase peguei O Falecido Mattia Pascal, de Pirandello, mas a Itália do começo do século passado também não era um destino tentador.

Como me decidi? Huxley me deu uma mãozinha: estou adorando conhecer a intelectualidade inglesa dos “loucos” anos vinte, decadentemente devassa e abjetamente puritana ao mesmo tempo.E ainda estava disposto a dar uma chance a algum autor consagrado que jamais li.Terminei optando por Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, que se passa na mesma época de Contraponto.Depois de conhecer a intelectualidade da época, vou mergulhar de cabeça no universo da mulher da aristocracia dessa mesma sociedade e dessa mesma época.Será um atrativo a mais imaginar Clarissa Dalloway e Septimus Warren (personagens de Mrs. Dalloway) assistindo a uma peça de teatro, por exemplo, ao lado de Lucy Tantamount e Mark Rampion (estes de Contraponto), e comparar os universos tão distintos desses personagens que compartilham uma mesma época e uma mesma sociedade, e imaginar como eles poderiam interagir entre si, mesmo que involuntariamente.

Deixo um aviso para vocês, então: continuarei na Inglaterra dos anos vinte ainda por algum tempo.Têm algum destino interessante para me sugerir? Falem! Como bom turista, adoro receber informações de outros roteiros interessantes.E quem sabe eu possa optar por ele quando decidir fazer minha próxima viagem.


 Escrito por João Philippe às 00h07
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SPLENDID LOMBRA VISIONS*

Eu me encontrava desolado na frente desse PC, escrevendo alguma coisa bem sem graça sobre o rompimento da Argentina com o FMI, bem no estilo das minhas diatribes com a esquerda que já devem ter cansado todos vocês, tanto que nem mais aparecem aqui.Aí encontrei um conhecido meu no MSN, que me contou uma anedota tão lisergicamente cômica que me vi na imperiosa necessidade de compartilhar com vocês.

Estava ele e alguns conhecidos próximos de um bar.Já haviam bebido algumas e buscavam algo que fosse além.Logo, um deles puxa o saquinho, o passaporte para o reino da fantasia, a passagem de graça para Shangri-Lá: a erva, o baseado, o chá, se é que vocês me entendem.Todos começam a fumar (nessa hora, eu fico com uma inveja...).Todos estão viajando no embalo da Canabis, inebriados pelos doces encantos da Volúpia psicotrópica quando...

Aquilo só poderia ser uma alucinação de seus devaneios lúbricos.Uma peça que lhes pregavam os sentidos embaçados pela ação mesmerizante do narcótico.De repente, eis que se aproxima um vulto.A princípio, diáfano, do qual não se consegue divisar muita coisa além de pálidos contornos.Mas logo a visão quase imaterial começa a tomar formas mais definidas: vislumbra-se uma silhueta humana, logo depois a de um homem, e em seguida a de um... político!

Nesse momento você deve estar imaginando que a lombra da maconha passou para você, não é, leitor? Pois não é isso, acredite.Essa é apenas a realidade de um período eleitoral.Há umas duas semanas mencionei que nem o cenário underground estava livre.Pois nos desesperemos mais ainda: não se pode mais nem fumar um baseado e se ter uma viagem em paz, que lá estão ele, com santinhos na mão, vendendo suas almas em troca de votos se preciso for.

O final da história: o cara fez a sua propaganda e foi embora, deixando a todos mergulhados em perplexidade.E a mim, que a essa hora da madrugada, estou contando mais um “caso real e verídico que, segundo me contaram, aconteceu de verdade”, sabendo que vocês não vão acreditar em uma palavra do que eu disse.Definitivamente, eu preciso parar de usar drogas...

*O título é uma analogia a uma música da banda de Doom Gothic Metal norueguesa Trail Of Tears, chamada Splendid Coma visions.

 Escrito por João Philippe às 00h12
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O CONTEXTO DA BARBÁRIE

Devo ter algo de perversamente sádico em minha personalidade: por mais que tente evitar, sempre estou conversando com cristãos, e sinto um prazer mórbido em deixá-los mudos e sem argumentos (ou estrebuchantes, aliás, os estrebuchantes são os mais engraçados).Mas já estou me aborrecendo, pela simples razão de que eles sempre vêm com os mesmos argumentos batidos e falaciosos que não provam nada com coisa nenhuma.

O meu preferido é o do contexto histórico, porque é sacado por eles como sendo inatacável.Afinal, é bem no espírito relativista típico do pensamento moderno, e como eles são sempre os donos da verdade absoluta, acham que usando argumentos modernos vão tornar suas teorias menos estapafúrdias.Só que não dá para combinar relativismo e religião ou ideologia, o resultado sempre é grotesco.

Principalmente porque essa desculpa não é usada apenas por eles.Outro dia eu conversava com um neonazista a respeito do holocausto.Sabem o que ele me disse? “Você não pode ver a coisa de uma maneira tão estrita, tem que ver o contexto histórico do holocausto, era preciso acabar com a conspiração sionista, etc, etc...”.Depois, um comunista se saiu com a mesma lorota ao justificar o Gulag stalinista: “você precisa ver o contexto histórico do Gulag, era preciso derrotar os inimigos da revolução, aqueles porcos capitalistas, e por aí vai...”.E o cristão, tentando convencer um debatedor calejado como eu que as atrocidades cometidas em nome de Deus (e autorizadas por ele) na Bíblia e fora dela, tem que ser lidas de acordo com o contexto histórico.

Bem pesados os fatos, o contexto histórico não deve ser de todo desconsiderado.O problema aí é a generalização absurda da relatividade de valores.Em alguns casos temos que considerar que os valores mudaram com o passar do tempo.Mas a proibição do assassinato não muda com o passar do tempo.Matar pessoas sempre foi errado, e jamais o deixará de ser.Querem eles dizer que a preservação da vida pode ser deixada de lado em determinadas circunstâncias, como se tratasse de um aspecto secundário qualquer.O relativismo trouxe muitos benefícios à evolução das sociedades humanas, mas não pode ser extrapolado, sob pena de ser usado para justificar qualquer abuso, como fazem cristãos, comunistas e nazistas, adeptos de ideologias sectárias, que nunca deram bola para o relativismo, pois se acham donas da verdade absoluta, o utilizando para justificar ou minimizar suas atrocidades e continuarem a propagar seu veneno. É contra essa extrapolação que devemos lutar.

 Escrito por João Philippe às 02h51
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PROJETOS INÚTEIS

Nos últimos dias tenho me animado bastante com o projeto das resenhas que propus há quase um mês.Estou de férias e tenho tempo de sobra para ler, tanto que estou conseguindo por minhas leituras atrasadas em dia.Preciso ainda terminar Contraponto, de Aldous Huxley, para então pensar qual dos livros que marcaram minha vida eu resenharei primeiro.O projeto me empolga sobremaneira.

Mas ao mesmo tempo me desanimo um pouco.Primeiro, com a sensível queda de comentários do blog, mas este não é um problema decisivo, pois sempre fui acostumado a pregar para auditórios vazios, e estas resenhas afinal farão pouco sentido para alguém além de mim mesmo.O segundo motivo de desânimo vem exatamente de pequenos vôos que minha ambição permite dar: devaneava eu que essas resenhas poderiam ser um primeiro passo rumo a algum tipo de publicação periódica com o fim primordial de resenhar livros de autores consagrados e estreantes, tornando-se um orientador para o público comprador de livros.Cheguei mesmo a ver as pessoas lendo a publicação antes de saírem para a livraria.

Mas logo em seguida caí das nuvens às quais fui alçado pela megalomania de meu sonho: as pessoas mal compram jornais de notícias, quem então compraria um jornal literário? Os grandes jornais se limitam a dar um diminuto espaço lá nas últimas páginas para esse tipo de matéria, quando dão, porque sabem que nunca ninguém as lerá.Quando vão à livraria, elas procuram livros técnicos ou de auto-ajuda, ou aqueles que a escola ou o vestibular exigem.Não me proporia ao ridículo de resenhar um livro da Zibia Gasparetto, tenho coisa mais útil para fazer na vida.

Os autores novos talvez se interessassem pela coisa, afinal poderia ser uma maneira de promoverem suas obras.Mas também não daria certo: eles sabem que ninguém leria o tal jornal, então uma resenha boa ou má não exerceria qualquer influência sobre as vendas de seus livros.E o que se publica no Brasil é tão pouco, e geralmente tão ruim, que também seria desperdício de tempo se preocupar.

De um modo ou de outro, a idéia está lançada.Algum mecenas caridoso, amante da literatura e com disposição de bancar o projeto citado acima, que por feliz ou infeliz acaso visite este blog (ou alguém que conheça o tal mecenas), por favor, entre em contato.Como não acredito em mecenas brasileiros, OVNIS, Deus ou paranormalidade, sei que a chance de tal milagre ocorrer é praticamente nula.Mas isso não me impedirá de resenhar as obras: é uma necessidade que tenho de afirmar a compreensão das mesmas para mim.Não interessa se ninguém vai ler ou comentar as resenhas: elas estarão aqui, para dar o testemunho da formação de minha personalidade.

 Escrito por João Philippe às 00h41
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MENSCHWERDUNG DEGENERADO

No idioma de Goethe, a palavra Menschwerdung denomina a encarnação do verbo, como descrita no começo do Evangelho de João.Quer o evangelista convencer-nos de que “o verbo virou carne e habitou entre nós”, posição esta que a história do cristianismo permite que discordemos com veemência: a julgar pelo desprezo ao corpo pregado pelas diversas doutrinas cristãs, podemos dizer não que houve uma carnalização de Deus, mas uma diafanização do homem.Trocando em miúdos: o cristianismo não trouxe o etéreo para o material, mas tentou levar o último à força para junto do primeiro.

Ainda está difícil de entender? Vamos a um exemplo para esclarecer: na minha já mencionada conversa com um cristão no domingo, falava eu que a Bíblia, apesar de ser composta em grande parte de livros ruins e cheios de preconceitos e ódios, tinha alguns livros muito bons: Os sapienciais, preferencialmente, e falei do Cântico dos Cânticos, na verdade um longo poema erótico.O cara viu e gostou, aí eu dei uma sugestão sem nenhuma intenção de ferir suas suscetibilidades religiosas: que, da próxima vez que fosse ao motel, levasse a Bíblia consigo, ao invés do Kama Sutra.

Foi o suficiente para que ele se revoltasse e pedisse respeito.Eu repliquei que o motel era um lugar muito digno, mais digno, por exemplo, do que um quartel, pois no primeiro as pessoas vão se amar, e no segundo, estudar e treinar para matar outras pessoas.Ele então me veio com essa pérola:

—Amor não é isso! Sexo é uma necessidade, não amor!

Nossa! Será que ele separa mesmo assim as coisas? O amor é algo etéreo, imaterial, enquanto o sexo é apenas carnal, rotulando-o com a alcunha de “necessidade”, comparando-o certamente às necessidades de nosso baixo ventre.Essa é uma posição tipicamente cristã, afinal Cristo não casou, muito menos teve relacionamentos amorosos com mulheres, pois ao Menschwerdung, o sexo era algo impuro, talvez a ponto de transformá-lo em uma Tierwerdung (termo cunhado por Nietzsche como um contraposto a Menschwerdung, significando algo próximo de “animalização de Deus”).Como se exige que sigamos o exemplo de vida dele, então se conclui que devemos encarar o sexo com a mesma repugnância metafísica, conservando-o no pejorativo domínio das “necessidades”.Não foi à toa que o já mencionado filósofo alemão tenha dito que “o abdômen impede que o homem (cristão) se considere mais facilmente divino”.

A que conduziu tal pensamento no decorrer dos séculos? Simples: como as pessoas deveriam manter amor e sexo bem separados, ambos deveriam ser procurados em locais diferentes.Os homens deveriam buscar o sexo não em casa, mas nos prostíbulos, e as mulheres, arrumarem amantes jovens para satisfazer suas necessidades.Daí o fato de que os países cristãos são os que mais apresentam prostíbulos no mundo, e também se explica o fato de a literatura ocidental obsessivamente retratar o amor entre uma mulher casada e seu amante (vide Tristão e Isolda, Lancelot e Guinevere, por exemplo).Os casamentos no mundo cristão passaram a ser uniões meramente formais, onde a frustração sexual mascarada de virtude gerava um quadro no qual a hipocrisia campeava triunfante.E a frase do meu interlocutor cristão resume o que é a teia familiar cristã, besuntada com o peçonhento veneno da falsidade.

Daí mais à frente ele dizer que acha interessantes os quartéis, “pelo patriotismo e o heroísmo da força humana”. É como eu disse a ele: o cristianismo acha belo um quartel, lugar onde se treinam pessoas para matar, e acha impuro um motel, onde as pessoas estão para se amar.Existem padres e pastores abençoando máquinas de matar, humanas e inumanas, mas não existem padres e pastores no motel, abençoando as pessoas que lá estão para se amar, demonstrar um ao outro um sentimento belo como o amor.Ele contrapôs que existe a prostituição, mas isto não invalida meu argumento: é mais digno pagar por sexo do que matar pessoas.A julgar pela sangrenta história do cristianismo, os adeptos desta religião invertem os termos.São Menschwerdungs degenerados, com aversão à ligação entre sexo e amor, mas com apetite pelo sofrimento alheio.Prefiro mil vezes ser esta Tierwerdung orgulhosa de si própria, e inocente de tanto sangue derramado nestes últimos dois milênios por obra da sacrossanta Menschwerdung.

 Escrito por João Philippe às 00h32
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ASSIM É BOM DEMAIS

O MST vive falando em fazer, em pleno século XXI, a revolução chinesa de 1949.Tudo bem, a gente atura, mesmo porque não vou me preocupar com toda idéia idiota do mundo.O MST invade propriedades produtivas e depreda sua estrutura, espalhando o caos no campo.Isso incomoda, mas não a mim diretamente, pois não sou proprietário de terras.O líder do MST, João Stedile, viaja pra congressos de estudantes esquerdistas de cabeça oca em Ilhéus.Até aí nada de mais, ele tem o direito de ir aonde quiser, acompanhado dos idiotas que quiser.

O problema é que ele viajou com despesas pagas pelo erário público!!!!!!!!!

Aí não dá, né, meu chapa! A gente atura muita coisa.Mas viajar às custas do MEU DINHEIRO?

Stedile, MST e governo Lula, gostaria de educadamente mandá-los tomar no rabo...E, por favor, não usem dinheiro público para executar essa tarefa, tá?

 Escrito por João Philippe às 01h36
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CENSURA DO PRECONCEITO

Cansei de viver repetindo isso, mas é necessário para que se possa explicar as circunstâncias dos fatos: Teresina é um lugar tão atrasado que o filme do Cazuza só estreou por estas bandas neste último final de semana, quase dois meses depois da estréia nacional.Corri para assisti-lo, claro, e gostei muito do que vi.O filme não dourou a pílula, não se intimidou diante das cenas homossexuais e conseguiu, em grande parte das quase duas horas de projeção, controlar a tentação de transformar o protagonista em um herói da geração oitentista (embora, em parte, ele tenha sido isso mesmo) ou em um vilão que torturava os pais com suas atitudes inconseqüentes.Conseguiu se equilibrar entre ambas as generalizações, mostrando um Cazuza que punha os pais em estado de desespero com suas loucuras, mas ao mesmo tempo os amava e lutava para viver do jeito que achava mais agradável.

Fazer filmes sobre grandes personalidades é sempre uma tarefa arriscada, pois além do risco factível de divinizar ou demonizar o retratado, há ainda a tendência de inventar ou maquiar fatos para que fiquem mais palatáveis ao público, ou ainda, a escolha de atores cuja semelhança física contou mais do que o talento dramático.Nesse caso, todos os problemas listados foram contornados com maestria: não se hesita em mostrar a bissexualidade do personagem principal, nem os palavrões que este chega a dirigir mesmo à mãe.E a escolha do ator não poderia ter sido melhor: Daniel Oliveira não apenas está a cara de Cazuza, como boa parte da imprensa alardeou com entusiasmo, mas encarnou o personagem com a força e a dramaticidade requeridas.Sua atuação é forte e intensa, em todos os momentos, e venceu aquele que é o maior desafio de quem se propõe a interpretar um personagem com gostos sexuais um tanto, digamos, heterodoxos: não esteve travado nem desmunhecou em excesso, e qualquer das alternativas teria dado uma aparência forçada às cenas.

O filme, em si, foi ótimo.Porém, há de se ressaltar uma falha.E aqui ela não está diretamente relacionada ao filme, mas à censura deste.Quando eu vi a placa anunciando 16 anos, esperei por cenas mais incisivas.Mas o máximo de nudez que se viu foi uma garota com os seios de fora durante não mais do que trinta segundos, e a cena nem mesmo estava inserida em um contexto sexual (a moça procurava sua camisa, e Cazuza cede a sua).No mais, em nenhuma cena se vê algo suficientemente erótico para merecer uma censura de 16 anos.A não ser, claro, aquelas nas quais Cazuza se agarra em beijos tórridos com um rapaz, mas as crianças assistem cenas bem mais picantes na novela das oito, que passa em horário nobre com censura simbólica de doze anos.Nem mesmo nus eles estavam nas cenas: na mais ardente, um deles vestia uma cueca (que garota de seus dez anos de idade nunca viu um homem de cueca?).

Só posso intuir, portanto, que a censura elevada foi provocada por puro e simples preconceito.Porque alguns censores caretas acham “nojento” e “indecente”, qualquer cena em que casais homossexuais façam até mesmo um simples carinho um no outro, que dirá uma cena de beijo.E foram apenas duas cenas rápidas, que juntas não deve ter durado nem dois minutos. É este mais um mal cristão de nossa sociedade: existe uma verdadeira paranóia quanto à exibição de algo que tenha um conteúdo minimamente erótico.Já vi filmes violentíssimos passarem em branco pela censura, enquanto qualquer par de seios à mostra merece censura 16 anos.E filme com beijos homossexuais então nem se fala: não fosse Cazuza ser um filme muito famoso e alardeado, teriam eles posto censura 18 anos e uma tarja preta na frente do cartaz advertindo se tratar de indecências piores que as encontradas nos filmes pornôs.São hipocrisias difíceis de se engolir, e que mostram o quanto nos encontramos longe de uma sociedade verdadeiramente democrática, fraterna e tolerante com o diferente.

 Escrito por João Philippe às 00h47
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UMA ÓTIMA TERAPIA

Finalmente encontrei uma utilidade para o cristianismo: levantar a auto-estima e afirmar minha inteligência para mim mesmo e para os outros.Estava domingo à noite na Internet, sem lá muita coisa para fazer.De repente, chega um cara para conversar comigo (já havíamos conversado antes, mas bem superficialmente).Ele veio sinceramente tentar convencer-me de que a Bíblia pode trazer algo positivo para a humanidade, e veio falar dos Dez Mandamentos e aquela coisa toda (como se a Bíblia não tivesse plagiado esses mandamentos de escritos sumérios e egípcios, mas nem cheguei a mencionar isso).Eu disse a ele que a Bíblia autorizava massacres e estupros em massa, e ele, incrédulo, me desafiou a provar o que estava dizendo.

Sem problemas! Peguei a Bíblia e comecei a citar as passagens (outra coisa engraçada: eu sabia manejar a Bíblia muito melhor do que ele, mas isso não vem ao caso).A princípio, ele não acreditou muito, e foi pedir ajuda em um canal evangélico.Lá deram a ele a esfarrapadíssima desculpa do contexto histórico, e eu disse a ele que o contexto histórico é a desculpa de sempre para se justificar atrocidades.A Igreja justifica as brutalidades da Inquisição, os nazistas justificam as barbaridades de Auschwitz e os comunistas justificam as monstruosidades do Gulag, todos apelando para o tal “contexto histórico”.Querem mesmo eles dizer que roubar, matar e estuprar pessoas pode ser correto, dependendo do contexto histórico.Ante esta resposta, ficou o rapaz meio paralisado, e terminou levando as minhas objeções ao canal evangélico no qual tentava arrancar argumentos para me combater (veja bem, estava eu debatendo com sei lá quantas pessoas ao mesmo tempo!).Vejam a resposta que veio do divinamente iluminado canal de carolas:

—Nossa, tá mal´s então, hein? És presa fácil demais para Satanás, meu amado, que Deus te proteja mesmo.

Eu não pude agüentar: ri até não poder mais.O carola do canal evangélico simplesmente não tinha argumentos, aí veio com a admoestação de que meu interlocutor estaria dando azo aos sortilégios do tinhoso.E me deliciei ao imaginar que o evangélico devia estar concebendo minha imagem na mente com um tridente e chifres, e o malévolo fedor de enxofre.Mas o cara com quem eu conversava estava preocupado em argumentar decentemente.E um pouco mais à frente ele cola a resposta definitiva do evangélico:

—Ai, ai! Deixa pra lá, falar com você dá mais trabalho do que falar em braile, tá doido!

Só não gargalhei alto por medo de acordar os vizinhos.Nossa mãe! Ultimamente minha vida anda suficientemente boa para que eu não precise acalentar meu ego carente, mas mesmo assim, quando aparece a oportunidade, é ótimo! Há um mês, mais ou menos, encetei uma discussão parecida num canal, e o meu oponente (que não é o mesmo deste domingo), logo que se achou desarmado de argumentos e me viu apontando minha artilharia argumentativa devastadora em sua direção, começou a me xingar, chegou mesmo a dizer que eu era um cara presunçoso e ridículo que falava aquelas coisas de ceticismo porque achava que ia atrair mulheres com aquela conversa fiada (é, meus caros, ele disse isso!).Respondi que não estava numa fase precisamente escassa de mulher àquela época (eu até namorava uma garota, ora!), e que os seus ataques ridículos à minha pessoa não tornaria suas idéias menos idiotas do que já eram.Várias pessoas do canal, mesmo algumas que não concordavam com meus pontos de vista céticos, concordaram comigo e fizeram pouco da cara do sujeitinho estrebuchante.E recebi mensagens de apoio de algumas mulheres, até, não fosse o fato de estar namorando na época, poderia perfeitamente ter aproveitado o ensejo para encetar uma conversa mais profunda, terminando por confirmar a teoria conspiratória do outro lá.

É por isso que eu amo os cristãos: eles me tornam um gênio da humanidade quando pretendem me enfrentar com sua cegueira de pensamento.Inflam meu ego, e me ajudam até a fazer contatos com outros céticos.

Quanto ao meu interlocutor, logo passamos a conversar sobre temas diversos.Não digo que ele se convenceu com os meus argumentos, mas garanto que foi para a cama pensando no que eu disse, e se for alguém com honestidade argumentativa, como eu acredito que seja, deve estar com algumas belas dúvidas na cabeça.Não duvido que tenha atirado a Bíblia pela janela!

P.S. Amanhã, a segunda parte da conversa, que também rendeu algumas observações interessantes que compartilharei com vocês.E como se não fosse o bastante, quando fui dormir ainda tive um sonho daqueles! Mas isso eu não posso revelar, né?

 Escrito por João Philippe às 01h03
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SOBERANIA DA CARNIFICINA

A coisa já adquiriu proporções de genocídio: o governo sudanês há alguns anos move uma campanha de extermínio contra uma parcela de sua população.A maioria árabe, encastelada no poder, deseja varrer do mapa os negros que habitam as terras do oeste, ao longo da fronteira com o Chade.De acordo com a ONU, são dois milhões de pessoas desnutridas (300 mil correndo risco iminente de morte), mais de um milhão de refugiados em países vizinhos, outro milhão de pessoas obrigadas a abandonar suas residências e vagarem sem rumo em busca de refúgio, à mercê das milícias paramilitares de extermínio.O governo sudanês financia e dá guarida a esquadrões da morte que incendeiam aldeias, praticam estupros coletivos e já escravizaram meio milhão de crianças.Desde os massacres etnocidas de Ruanda em 1994 e da Iugoslávia de Melosevic não se via uma campanha de extermínio destas proporções.

Pois bem, o Conselho de Segurança da ONU está debatendo a questão, se decide ou não impor sanções econômicas ao regime que patrocina a limpeza étnica.Esta é uma causa inatacável, não? Condenar um extermínio de vidas sempre vale a pena, certo? Não para determinadas alas da esquerda brasileira e mundial.A esquerda brasileira, empoleirada no governo e na diplomacia, pretende embargar a proposta americana de impor sanções econômicas ao Sudão.E bastou os americanos anunciarem que “vão tomar providências”, com ou sem a ajuda da ONU, para vozes revoltadas se levantarem contra o “abuso e a prepotência americana de serem os senhores do mundo, intervindo na soberania das outras nações”.Está claro aonde esse raciocínio leva: a soberania é um bem inalienável, mais até do que a vida.Quem esses arrogantes americanos pensam que são para impedir que o governo soberano do Sudão estupre mulheres, extermine pessoas e escravize crianças? Onde já se viu tamanho absurdo?

Nojento esse pensamento, não? Pois não se surpreenda, não é a primeira vez que a esquerda se alia a esquadrões da morte e regimes assassinos.Protestaram contra os bombardeios americanos ao Iraque, interrompendo a soberania de Saddam Hussein de pulverizar seu povo com gás venenoso.Foram contra a intervenção na Somália, a favor do direito inalienável de Aidid de saquear a comida da Cruz Vermelha e matar o povo somali de fome.Defenderam o legítimo direito de Slobodan Melosevic de exterminar croatas e bósnios e organizar orgias macabras, onde mulheres croatas e muçulmanas eram estupradas diante de seus maridos, pais e filhos.E agora, se prontificam a lutar pelo direito do governo do Sudão de exterminar a população negra do sul do país, e de escravizar seus filhos, como, aliás, já o fazem.

Houve um tempo em que eu considerava a esquerda ingênua, com concepções políticas e econômicas erradas, mas sincera em suas intenções humanitárias.Nos últimos dez anos, esses sucessivos apoios a genocidas me fizeram pegar nojo a esse tipo de gente.Segundo os argumentos listados acima, ninguém teria o direito de invadir a Europa e cassar na base da força o direito soberano de Hitler de escravizar e exterminar a população judia da Europa, não é mesmo?

Me enoja o fato de pessoas preferirem ver as posições americanas frustradas do que salvar vidas que estão à mercê de ditadores sanguinários e milícias criminosas de extermínio.Enfim, o que esperar de pessoas que consideram “movimento de luta popular” uma organização que explode uma creche e mata 300 crianças, sob a justificativa de que eram “crianças da elite exploradora”? As FARC vem fazendo isso e muito mais há anos e continuam a merecer o carimbo de “movimento de luta popular”.Haja cegueira e falta de humanidade!

 Escrito por João Philippe às 20h05
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METÁFORA PROFUNDA, OBSERVAÇÃO MEDÍOCRE

Como Teresina é uma cidade atrasada sob todos os pontos de vista, o tão falado Dogville, filme do não menos falado Lars Von Trier (o polêmico protagonista do manifesto Dogma 95, que bania o uso de cenários, luz artificial e atores profissionais nos filmes), não passou nem perto dos cinemas daqui, e apenas há duas semanas chegou nas locadoras, sendo disputado a tapa.Finalmente, ontem consegui assisti-lo, e valeu a pena toda a espera: o filme é esplêndido.

Muitos estranham o fato de não haver cenários (a cidade é definida apenas por marcas no chão que indicam ruas e casas), mas é essa a graça do filme: podemos ver diversas cenas ao mesmo tempo: as crianças brincando na rua, a mãe lavando a louça, o cego tateando... A história, para quem não assistiu, é a seguinte: no auge da Grande Depressão dos anos 30, uma moça chega à cidade de Dogville, que tem apenas 15 habitantes, e fica isolada no meio das Montanhas Rochosas, perseguida por gângsters.Um dos moradores, metido a escritor e filósofo, intercede por ela junto à comunidade, que a aceita, mediante o pagamento de alguns serviços.A moça, prestativa, cativa todos, mas com o tempo, os moradores exigem cada vez mais serviços, até chegarem à mais grotesca exploração: ela é insultada, escravizada, estuprada por todos.Até que o tal gângster que a perseguia se revela seu pai, e ela havia então sido enviada para aprender algo sobre o ser humano naquela cidade.

Não foram poucas as pessoas que enxergaram idiotices, como ver o filme como uma crítica ao american way of life, ao capitalismo ou à democracia.Porque Dogville é humana, não americana: poderia se situar em qualquer lugar do planeta. É incrível como a ideologia é capaz de distorcer as coisas, fazendo as pessoas verem tudo através de seu prisma.Mas estes não importam, por mais que eles sejam voltados aos umbigos das próprias ideologias, isso não desmerece o filme.A meu ver, a metáfora vai muito mais fundo do que mera crítica a uma sociedade ou a um modelo econômico.Vai ao centro da civilização ocidental.

Grace, a protagonista, é como se fosse Cristo: ela resolve ir para Dogville para fugir da estrutura familiar gângster, cheia de ódio, e tenta viver com base na doação aos outros e na resignação.Exatamente como a Bíblia conta que Deus mandou seu filho para, através do sofrimento, redimir os homens.Grace tem o mesmo objetivo.Mas ela constata o fracasso de seu plano: as pessoas cada vez mais abusam dela, a prendem, a insultam, a exploram, a estupram... Por fim, seu pai lhe mostra que o sofrimento e o “oferecer a outra face” dela, não fará as pessoas melhores, apenas as incitará a serem ainda mais cruéis.Ela termina por decretar a sentença de morte de Dogville, autorizando os capangas do pai a matarem todos aqueles que a exploraram.

O que torna o filme perturbador é justamente a sua humanidade: como Dogville representa a humanidade, quando ela é exterminada, sentimo-nos todos nós condenados junto com ela.Percebemos que ali estamos expostos nós, em todas as nossas mesquinharias e cruezas.Porque, embora condenemos os habitantes da cidade, sabemos que poderíamos ter agido como eles.Nós percebemos a nossa responsabilidade como seres humanos livres, e o peso que encerra esta responsabilidade.Lars Von Trier envia um novo Cristo à Terra.E este Cristo nos condena.Isso é perturbador.

 Escrito por João Philippe às 02h24
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PRECONCEITO EM PRETO E BRANCO

Enganam-se aqueles que pensam que vivemos em uma época tranqüila, onde não há um grande debate na sociedade a respeito de valores morais, pelo menos não tão intensos quanto os ocorridos após a revolução francesa ou nos anos 60.Estamos sim, em um momento crucial de afirmação de valores, e a contenda entre os defensores da mudança e os paladinos do deixa-tudo-como-está apenas se inicia, prometendo encarniçados rounds.

Falo, como já devem ter suspeitado, da grande discussão acerca da legalização do casamento gay.A Superinteressante, aliás, fez deste tema sua matéria de capa neste mês de julho.E ao contrário do que a maioria acredita, o aspecto moral é completamente irrelevante para se tratar a questão, pois a tal “moral” que se invoca é claramente vinculada a uma religião, e num estado laico a religião deve estar de fora de toda e qualquer discussão.Os conservadores apelam para a moral por um único motivo: sabem que não possuem argumentos jurídicos, filosóficos ou científicos para defenderem seu preconceito.

Do ponto de vista jurídico, não há qualquer impedimento constitucional à união de pessoas do mesmo sexo.E, legalizadas ou não, tais uniões existem, portanto o Estado deve se limitar a uma questão: é justo privar estas pessoas do direito legítimo de viverem com quem bem entendem? Não vou nem falar da ciência, pois esta não mais classifica homossexualismo como doença, tampouco mostra que tal preferência seja desvantajosa do ponto de vista físico para quem a possui.

É na moral, portanto, que se entrincheiram os contrários à causa: alegam que o casamento gay ameaça a família e é uma afronta à moral e aos bons costumes.O mesmo disseram eles do divórcio, da inseminação artificial, do planejamento familiar e do aborto.Tais medidas já foram incorporadas em vários lugares do mundo, e em nenhum deles se verificou o desmonte da estrutura familiar.Portanto, a experiência já desqualifica o primeiro argumento.Quanto ao segundo, o que se está mesmo afrontando? Padrões morais universais ou preconceitos cristãos? Que o cristianismo é intolerante com tudo aquilo que difere dele não é novidade.Se me é repugnante ver alguém comendo chouriço, não se configura isto um motivo para baixar uma lei proibindo as pessoas de consumirem chouriço.Do mesmo modo, se lhe causa asco a idéia de que duas pessoas do mesmo sexo vivam em comum e tenham os mesmos direitos dos demais cidadãos, o problema é seu.Não é justo impor uma lei à sociedade e cassar direitos de cidadãos que vivem na lei e pagam seus impostos devidamente apenas para que você possa ficar tranqüilo com sua conscienciazinha medíocre e pequena.

Os homossexuais têm os mesmos deveres de um heterossexual: pagar os impostos devidos, votar e prestar serviço militar, dentre outros.Por que não têm os mesmos direitos? O que justifica uma prática discriminatória como essa? A religião? Bom, a Igreja Reformada Holandesa legitimou religiosamente o apartheid na África do Sul, a Igreja Católica legitima religiosamente a expansão da Aids na África ao proscrever o uso de preservativos, e por aí vai.Sempre se encontra legitimação religiosa para as maiores torpezas, e não é diferente neste caso.”Mas a maioria é contra o casamento gay”, dizem alguns.Meus caros, a maioria também apoiava a discriminação aos negros nos Estados Unidos e aos judeus na Alemanha nazista.Não confundam democracia com ditadura da maioria.

Cheguei mesmo a pensar em fazer deste debate o tema da minha monografia, mas desisti: defender o casamento gay do ponto de vista jurídico é ridiculamente fácil, pois na doutrina e na lei não faltam argumentos a favor.Até mesmo um aspecto mais espinhoso da questão (a adoção de crianças por homossexuais), que costuma dividir mesmo mentes mais liberais, não encontra dificuldades na lei.Aliás, nem mesmo cheguei a tratar deste tema aqui.Ele dá tanto pano para manga que prefiro deixá-lo para outra oportunidade.Para encerrar, uma curiosidade: será mera coincidência o fato de que o aborto e a união civil de homossexuais são legalizados exatamente nos países mais ricos, democráticos e respeitadores da ordem jurídica e dos Direitos Humanos no mundo? Será que estas sociedades justas, harmônicas e cultas estão erradas, e os países mais atrasados, autoritários e analfabetos do mundo estão certos nestas questões? É algo para se refletir.

 Escrito por João Philippe às 01h11
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ATENDENDO A PEDIDOS: MEU DIÁLOGO COM O PEDREIRO (OU COMO JAMAIS PERDER A EXPECTATIVA DE SE SURPREENDER COM AS PESSOAS)

Na semana passada publiquei o meu diálogo com o encanador.Meu amigo Ânderson lembrou outra anedota equivalente: o meu diálogo com o pedreiro, que também traz uma lição interessante.Pois bem, atendendo ao seu pedido, aqui está aquilo que seria uma fábula, se não fosse real.

Um pedreiro estava consertando a parede da cozinha, cujo reboco rachava em vários pontos.Eu, como sempre, estava enfurnado no quarto, escutando música e escrevendo qualquer coisa.Em um determinado momento, ele passou diante da porta, se deteve e fez uma pergunta:

—Gosta de Slayer?—Perguntou com ar doutoral.

—Gosto sim!—Eu respondi animado, e já surpreendido com o fato de ele haver reconhecido a banda, que não é nada popularesca.Mas ainda havia mais:

—Cara, eu até gosto do Seasons In The Abyss—Referia-se ao CD que estava tocando—Mas prefiro mesmo o Reign In Blood, embora o Hell Awaits e o Show No Mercy também sejam do caralho! (todos esses são álbuns do Slayer)

Não me deu tempo nem de encetar uma conversa mais duradoura: pegou a colher de pedreiro e retornou ao serviço.Tive que sair logo depois e quando voltei, já não mais o encontrei lá.Nada seria surpreendente se vindo de alguém de classe média ou alta, que é o grosso do público entusiasta de heavy metal.Mas de um pedreiro, realmente assusta ao limite da estupefação tamanha familiaridade com uma banda agressiva como o Slayer, que pode tranqüilamente ser considerada uma das mais anticristãs do presente e do passado.Pude perceber o quão salutar é o efeito de se surpreender positivamente com as pessoas, faz com que reafirmemos nossa fé no gênero humano, tão freqüentemente abalada devido à onda de notícias de crimes.Neste dia, eu reafirmei minha fé na humanidade.A carrego até hoje.

P.S. Amanhã, com o sem falta, o artigo sobre casamento gay!

 Escrito por João Philippe às 00h23
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ÚLTIMO RINCÃO PROFANADO

Eis que me encontrava eu calmamente, inocentemente, esperando o ônibus para voltar para casa (havia ido à biblioteca), e reparando na propaganda política espalhada por todos os cantos, enfeando ainda mais nossa já nada bonita cidade que carrega a discutível distinção de ser a única capital nordestina sem saída para o mar. Virei-me, e me deparei com o cartaz do próximo show underground que será realizado neste sábado, 31 de julho.Um show underground no sentido estrito do termo, apenas com bandas verdadeiramente extremas (Unearthy-RJ, Headhunter D.C.-BA, Arkanus ad Noctum, Pecatorium e Asmodina, essas três últimas representando a produção extrema local).Percorri todo o cartaz com olhar de certa forma desinteressado, até que me deparei com uma surpresa e tanto: aquele que acreditava eu ser o último lugar onde politicagens tivessem lugar havia sido maculado! No rodapé do cartaz, lá estava: “Vereador Ferreira, 45 618, apoiando o underground!”.

Passado o pasmo inicial, me pus a refletir acerca do fato.Se os políticos já estão usando até estilos considerados extremamente alternativos e restritos, o que ainda está livre de sua nefasta peregrinação por votos? Eu freqüento o cenário underground de Teresina há quase dois anos, e nunca ouvi falar que esse dito-cujo vereador tenha ajudado a promoção dos shows e das bandas de alguma forma, ou então ando eu muito mal-informado.De qualquer forma, tal intervenção da política no cenário não está correta: se não ajuda ele em nada, como suspeito fortemente, é apenas um oportunista se lançando em todas as direções atrás de votos.Mas consideremos a possibilidade de eu estar enganado, e ele realmente ajudar a cena metal (de uma forma tão escondida que eu jamais percebi).Isso está certo?

No meu entender, não.Sempre critiquei políticos que destinam verbas públicas para a realização de carnavais fora de época ou a realização de espetáculos musicais em festejos e festividades assemelhadas.As pessoas sempre me tomavam por um chato que não gosta de freqüentar shows de axé, pagode e forró, nem carnavais, quer de época ou fora dela.No tocante a ser chato e não gostar desses estilos musicais, reconheço que é tudo verdade.Mas a complementação era mentirosa: “se fosse apoio a um evento de pop/rock, heavy metal ou música clássica, aposto que você não diria nada”.Diria sim, da mesma forma.Não critico esse subsídio público apenas porque ele se destina a coisas das quais eu não usufruo, o critico em sua essência, pois creio que todo subsídio é venenoso por definição.

Ora, o Estado não tem o direito de subsidiar festas e eventos dos quais eu não participo com o dinheiro que arrecada com meus impostos, e da mesma forma, não tem o direito de patrocinar eventos que me agradam com o dinheiro de outras pessoas.Não pode ele patrocinar o show do Chiclete com Banana com meu dinheiro só porque minha vizinha adora a “música” que eles produzem, assim como não pode destinar o dinheiro dela para patrocinar o show do Dark Funeral apenas para que eu me esbalde ao ouvir o som destruidor do infernal quarteto sueco.O subsídio sempre é ruim, mas quando se destina à arte é ainda mais perigoso.Os governos começaram a se preocupar com subsídio à arte a partir do começo dos anos 90.Coincidentemente ou não, de lá para cá nossa música conheceu um declínio abismal de qualidade.

Por trás de tudo isso, está o fator cultural: vivemos no país do subsídio, na cultura do subsídio, que se encontra firmemente arraigada em nosso meio.Nossas empresas são subsidiadas, nossa cultura é subsidiada, nossa intelectualidade é subsidiada (vide o artigo sobre as universidades publicado há uns 3 dias)... E todos os setores subsidiados padecem de uma crônica falta de eficiência e qualidade.Por isso me revolto com a idéia de um político “apoiando o underground”.Receber subsídio governamental é o primeiro passo rumo à mediocridade.Veja os “intelectuais” formados nas universidades brasileiras escrevendo abaixo-assinados para apoiar caudilhos populistas e tiranetes como Fidel Castro e Hugo Chávez como exemplo.Não permitiremos que o heavy metal chegue a um nível tão deprimente de alienação e falta de originalidade

 Escrito por João Philippe às 00h25
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