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PROJETOS INÚTEIS
Nos últimos dias tenho me animado bastante com o projeto das resenhas que propus há quase um mês.Estou de férias e tenho tempo de sobra para ler, tanto que estou conseguindo por minhas leituras atrasadas em dia.Preciso ainda terminar Contraponto, de Aldous Huxley, para então pensar qual dos livros que marcaram minha vida eu resenharei primeiro.O projeto me empolga sobremaneira.
Mas ao mesmo tempo me desanimo um pouco.Primeiro, com a sensível queda de comentários do blog, mas este não é um problema decisivo, pois sempre fui acostumado a pregar para auditórios vazios, e estas resenhas afinal farão pouco sentido para alguém além de mim mesmo.O segundo motivo de desânimo vem exatamente de pequenos vôos que minha ambição permite dar: devaneava eu que essas resenhas poderiam ser um primeiro passo rumo a algum tipo de publicação periódica com o fim primordial de resenhar livros de autores consagrados e estreantes, tornando-se um orientador para o público comprador de livros.Cheguei mesmo a ver as pessoas lendo a publicação antes de saírem para a livraria.
Mas logo em seguida caí das nuvens às quais fui alçado pela megalomania de meu sonho: as pessoas mal compram jornais de notícias, quem então compraria um jornal literário? Os grandes jornais se limitam a dar um diminuto espaço lá nas últimas páginas para esse tipo de matéria, quando dão, porque sabem que nunca ninguém as lerá.Quando vão à livraria, elas procuram livros técnicos ou de auto-ajuda, ou aqueles que a escola ou o vestibular exigem.Não me proporia ao ridículo de resenhar um livro da Zibia Gasparetto, tenho coisa mais útil para fazer na vida.
Os autores novos talvez se interessassem pela coisa, afinal poderia ser uma maneira de promoverem suas obras.Mas também não daria certo: eles sabem que ninguém leria o tal jornal, então uma resenha boa ou má não exerceria qualquer influência sobre as vendas de seus livros.E o que se publica no Brasil é tão pouco, e geralmente tão ruim, que também seria desperdício de tempo se preocupar.
De um modo ou de outro, a idéia está lançada.Algum mecenas caridoso, amante da literatura e com disposição de bancar o projeto citado acima, que por feliz ou infeliz acaso visite este blog (ou alguém que conheça o tal mecenas), por favor, entre em contato.Como não acredito em mecenas brasileiros, OVNIS, Deus ou paranormalidade, sei que a chance de tal milagre ocorrer é praticamente nula.Mas isso não me impedirá de resenhar as obras: é uma necessidade que tenho de afirmar a compreensão das mesmas para mim.Não interessa se ninguém vai ler ou comentar as resenhas: elas estarão aqui, para dar o testemunho da formação de minha personalidade.
Escrito por João Philippe às 00h41
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MENSCHWERDUNG DEGENERADO
No idioma de Goethe, a palavra Menschwerdung denomina a encarnação do verbo, como descrita no começo do Evangelho de João.Quer o evangelista convencer-nos de que “o verbo virou carne e habitou entre nós”, posição esta que a história do cristianismo permite que discordemos com veemência: a julgar pelo desprezo ao corpo pregado pelas diversas doutrinas cristãs, podemos dizer não que houve uma carnalização de Deus, mas uma diafanização do homem.Trocando em miúdos: o cristianismo não trouxe o etéreo para o material, mas tentou levar o último à força para junto do primeiro.
Ainda está difícil de entender? Vamos a um exemplo para esclarecer: na minha já mencionada conversa com um cristão no domingo, falava eu que a Bíblia, apesar de ser composta em grande parte de livros ruins e cheios de preconceitos e ódios, tinha alguns livros muito bons: Os sapienciais, preferencialmente, e falei do Cântico dos Cânticos, na verdade um longo poema erótico.O cara viu e gostou, aí eu dei uma sugestão sem nenhuma intenção de ferir suas suscetibilidades religiosas: que, da próxima vez que fosse ao motel, levasse a Bíblia consigo, ao invés do Kama Sutra.
Foi o suficiente para que ele se revoltasse e pedisse respeito.Eu repliquei que o motel era um lugar muito digno, mais digno, por exemplo, do que um quartel, pois no primeiro as pessoas vão se amar, e no segundo, estudar e treinar para matar outras pessoas.Ele então me veio com essa pérola:
—Amor não é isso! Sexo é uma necessidade, não amor!
Nossa! Será que ele separa mesmo assim as coisas? O amor é algo etéreo, imaterial, enquanto o sexo é apenas carnal, rotulando-o com a alcunha de “necessidade”, comparando-o certamente às necessidades de nosso baixo ventre.Essa é uma posição tipicamente cristã, afinal Cristo não casou, muito menos teve relacionamentos amorosos com mulheres, pois ao Menschwerdung, o sexo era algo impuro, talvez a ponto de transformá-lo em uma Tierwerdung (termo cunhado por Nietzsche como um contraposto a Menschwerdung, significando algo próximo de “animalização de Deus”).Como se exige que sigamos o exemplo de vida dele, então se conclui que devemos encarar o sexo com a mesma repugnância metafísica, conservando-o no pejorativo domínio das “necessidades”.Não foi à toa que o já mencionado filósofo alemão tenha dito que “o abdômen impede que o homem (cristão) se considere mais facilmente divino”.
A que conduziu tal pensamento no decorrer dos séculos? Simples: como as pessoas deveriam manter amor e sexo bem separados, ambos deveriam ser procurados em locais diferentes.Os homens deveriam buscar o sexo não em casa, mas nos prostíbulos, e as mulheres, arrumarem amantes jovens para satisfazer suas necessidades.Daí o fato de que os países cristãos são os que mais apresentam prostíbulos no mundo, e também se explica o fato de a literatura ocidental obsessivamente retratar o amor entre uma mulher casada e seu amante (vide Tristão e Isolda, Lancelot e Guinevere, por exemplo).Os casamentos no mundo cristão passaram a ser uniões meramente formais, onde a frustração sexual mascarada de virtude gerava um quadro no qual a hipocrisia campeava triunfante.E a frase do meu interlocutor cristão resume o que é a teia familiar cristã, besuntada com o peçonhento veneno da falsidade.
Daí mais à frente ele dizer que acha interessantes os quartéis, “pelo patriotismo e o heroísmo da força humana”. É como eu disse a ele: o cristianismo acha belo um quartel, lugar onde se treinam pessoas para matar, e acha impuro um motel, onde as pessoas estão para se amar.Existem padres e pastores abençoando máquinas de matar, humanas e inumanas, mas não existem padres e pastores no motel, abençoando as pessoas que lá estão para se amar, demonstrar um ao outro um sentimento belo como o amor.Ele contrapôs que existe a prostituição, mas isto não invalida meu argumento: é mais digno pagar por sexo do que matar pessoas.A julgar pela sangrenta história do cristianismo, os adeptos desta religião invertem os termos.São Menschwerdungs degenerados, com aversão à ligação entre sexo e amor, mas com apetite pelo sofrimento alheio.Prefiro mil vezes ser esta Tierwerdung orgulhosa de si própria, e inocente de tanto sangue derramado nestes últimos dois milênios por obra da sacrossanta Menschwerdung.
Escrito por João Philippe às 00h32
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ASSIM É BOM DEMAIS
O MST vive falando em fazer, em pleno século XXI, a revolução chinesa de 1949.Tudo bem, a gente atura, mesmo porque não vou me preocupar com toda idéia idiota do mundo.O MST invade propriedades produtivas e depreda sua estrutura, espalhando o caos no campo.Isso incomoda, mas não a mim diretamente, pois não sou proprietário de terras.O líder do MST, João Stedile, viaja pra congressos de estudantes esquerdistas de cabeça oca em Ilhéus.Até aí nada de mais, ele tem o direito de ir aonde quiser, acompanhado dos idiotas que quiser.
O problema é que ele viajou com despesas pagas pelo erário público!!!!!!!!!
Aí não dá, né, meu chapa! A gente atura muita coisa.Mas viajar às custas do MEU DINHEIRO?
Stedile, MST e governo Lula, gostaria de educadamente mandá-los tomar no rabo...E, por favor, não usem dinheiro público para executar essa tarefa, tá?
Escrito por João Philippe às 01h36
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CENSURA DO PRECONCEITO
Cansei de viver repetindo isso, mas é necessário para que se possa explicar as circunstâncias dos fatos: Teresina é um lugar tão atrasado que o filme do Cazuza só estreou por estas bandas neste último final de semana, quase dois meses depois da estréia nacional.Corri para assisti-lo, claro, e gostei muito do que vi.O filme não dourou a pílula, não se intimidou diante das cenas homossexuais e conseguiu, em grande parte das quase duas horas de projeção, controlar a tentação de transformar o protagonista em um herói da geração oitentista (embora, em parte, ele tenha sido isso mesmo) ou em um vilão que torturava os pais com suas atitudes inconseqüentes.Conseguiu se equilibrar entre ambas as generalizações, mostrando um Cazuza que punha os pais em estado de desespero com suas loucuras, mas ao mesmo tempo os amava e lutava para viver do jeito que achava mais agradável.
Fazer filmes sobre grandes personalidades é sempre uma tarefa arriscada, pois além do risco factível de divinizar ou demonizar o retratado, há ainda a tendência de inventar ou maquiar fatos para que fiquem mais palatáveis ao público, ou ainda, a escolha de atores cuja semelhança física contou mais do que o talento dramático.Nesse caso, todos os problemas listados foram contornados com maestria: não se hesita em mostrar a bissexualidade do personagem principal, nem os palavrões que este chega a dirigir mesmo à mãe.E a escolha do ator não poderia ter sido melhor: Daniel Oliveira não apenas está a cara de Cazuza, como boa parte da imprensa alardeou com entusiasmo, mas encarnou o personagem com a força e a dramaticidade requeridas.Sua atuação é forte e intensa, em todos os momentos, e venceu aquele que é o maior desafio de quem se propõe a interpretar um personagem com gostos sexuais um tanto, digamos, heterodoxos: não esteve travado nem desmunhecou em excesso, e qualquer das alternativas teria dado uma aparência forçada às cenas.
O filme, em si, foi ótimo.Porém, há de se ressaltar uma falha.E aqui ela não está diretamente relacionada ao filme, mas à censura deste.Quando eu vi a placa anunciando 16 anos, esperei por cenas mais incisivas.Mas o máximo de nudez que se viu foi uma garota com os seios de fora durante não mais do que trinta segundos, e a cena nem mesmo estava inserida em um contexto sexual (a moça procurava sua camisa, e Cazuza cede a sua).No mais, em nenhuma cena se vê algo suficientemente erótico para merecer uma censura de 16 anos.A não ser, claro, aquelas nas quais Cazuza se agarra em beijos tórridos com um rapaz, mas as crianças assistem cenas bem mais picantes na novela das oito, que passa em horário nobre com censura simbólica de doze anos.Nem mesmo nus eles estavam nas cenas: na mais ardente, um deles vestia uma cueca (que garota de seus dez anos de idade nunca viu um homem de cueca?).
Só posso intuir, portanto, que a censura elevada foi provocada por puro e simples preconceito.Porque alguns censores caretas acham “nojento” e “indecente”, qualquer cena em que casais homossexuais façam até mesmo um simples carinho um no outro, que dirá uma cena de beijo.E foram apenas duas cenas rápidas, que juntas não deve ter durado nem dois minutos. É este mais um mal cristão de nossa sociedade: existe uma verdadeira paranóia quanto à exibição de algo que tenha um conteúdo minimamente erótico.Já vi filmes violentíssimos passarem em branco pela censura, enquanto qualquer par de seios à mostra merece censura 16 anos.E filme com beijos homossexuais então nem se fala: não fosse Cazuza ser um filme muito famoso e alardeado, teriam eles posto censura 18 anos e uma tarja preta na frente do cartaz advertindo se tratar de indecências piores que as encontradas nos filmes pornôs.São hipocrisias difíceis de se engolir, e que mostram o quanto nos encontramos longe de uma sociedade verdadeiramente democrática, fraterna e tolerante com o diferente.
Escrito por João Philippe às 00h47
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UMA ÓTIMA TERAPIA
Finalmente encontrei uma utilidade para o cristianismo: levantar a auto-estima e afirmar minha inteligência para mim mesmo e para os outros.Estava domingo à noite na Internet, sem lá muita coisa para fazer.De repente, chega um cara para conversar comigo (já havíamos conversado antes, mas bem superficialmente).Ele veio sinceramente tentar convencer-me de que a Bíblia pode trazer algo positivo para a humanidade, e veio falar dos Dez Mandamentos e aquela coisa toda (como se a Bíblia não tivesse plagiado esses mandamentos de escritos sumérios e egípcios, mas nem cheguei a mencionar isso).Eu disse a ele que a Bíblia autorizava massacres e estupros em massa, e ele, incrédulo, me desafiou a provar o que estava dizendo.
Sem problemas! Peguei a Bíblia e comecei a citar as passagens (outra coisa engraçada: eu sabia manejar a Bíblia muito melhor do que ele, mas isso não vem ao caso).A princípio, ele não acreditou muito, e foi pedir ajuda em um canal evangélico.Lá deram a ele a esfarrapadíssima desculpa do contexto histórico, e eu disse a ele que o contexto histórico é a desculpa de sempre para se justificar atrocidades.A Igreja justifica as brutalidades da Inquisição, os nazistas justificam as barbaridades de Auschwitz e os comunistas justificam as monstruosidades do Gulag, todos apelando para o tal “contexto histórico”.Querem mesmo eles dizer que roubar, matar e estuprar pessoas pode ser correto, dependendo do contexto histórico.Ante esta resposta, ficou o rapaz meio paralisado, e terminou levando as minhas objeções ao canal evangélico no qual tentava arrancar argumentos para me combater (veja bem, estava eu debatendo com sei lá quantas pessoas ao mesmo tempo!).Vejam a resposta que veio do divinamente iluminado canal de carolas:
—Nossa, tá mal´s então, hein? És presa fácil demais para Satanás, meu amado, que Deus te proteja mesmo.
Eu não pude agüentar: ri até não poder mais.O carola do canal evangélico simplesmente não tinha argumentos, aí veio com a admoestação de que meu interlocutor estaria dando azo aos sortilégios do tinhoso.E me deliciei ao imaginar que o evangélico devia estar concebendo minha imagem na mente com um tridente e chifres, e o malévolo fedor de enxofre.Mas o cara com quem eu conversava estava preocupado em argumentar decentemente.E um pouco mais à frente ele cola a resposta definitiva do evangélico:
—Ai, ai! Deixa pra lá, falar com você dá mais trabalho do que falar em braile, tá doido!
Só não gargalhei alto por medo de acordar os vizinhos.Nossa mãe! Ultimamente minha vida anda suficientemente boa para que eu não precise acalentar meu ego carente, mas mesmo assim, quando aparece a oportunidade, é ótimo! Há um mês, mais ou menos, encetei uma discussão parecida num canal, e o meu oponente (que não é o mesmo deste domingo), logo que se achou desarmado de argumentos e me viu apontando minha artilharia argumentativa devastadora em sua direção, começou a me xingar, chegou mesmo a dizer que eu era um cara presunçoso e ridículo que falava aquelas coisas de ceticismo porque achava que ia atrair mulheres com aquela conversa fiada (é, meus caros, ele disse isso!).Respondi que não estava numa fase precisamente escassa de mulher àquela época (eu até namorava uma garota, ora!), e que os seus ataques ridículos à minha pessoa não tornaria suas idéias menos idiotas do que já eram.Várias pessoas do canal, mesmo algumas que não concordavam com meus pontos de vista céticos, concordaram comigo e fizeram pouco da cara do sujeitinho estrebuchante.E recebi mensagens de apoio de algumas mulheres, até, não fosse o fato de estar namorando na época, poderia perfeitamente ter aproveitado o ensejo para encetar uma conversa mais profunda, terminando por confirmar a teoria conspiratória do outro lá.
É por isso que eu amo os cristãos: eles me tornam um gênio da humanidade quando pretendem me enfrentar com sua cegueira de pensamento.Inflam meu ego, e me ajudam até a fazer contatos com outros céticos.
Quanto ao meu interlocutor, logo passamos a conversar sobre temas diversos.Não digo que ele se convenceu com os meus argumentos, mas garanto que foi para a cama pensando no que eu disse, e se for alguém com honestidade argumentativa, como eu acredito que seja, deve estar com algumas belas dúvidas na cabeça.Não duvido que tenha atirado a Bíblia pela janela!
P.S. Amanhã, a segunda parte da conversa, que também rendeu algumas observações interessantes que compartilharei com vocês.E como se não fosse o bastante, quando fui dormir ainda tive um sonho daqueles! Mas isso eu não posso revelar, né?
Escrito por João Philippe às 01h03
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SOBERANIA DA CARNIFICINA
A coisa já adquiriu proporções de genocídio: o governo sudanês há alguns anos move uma campanha de extermínio contra uma parcela de sua população.A maioria árabe, encastelada no poder, deseja varrer do mapa os negros que habitam as terras do oeste, ao longo da fronteira com o Chade.De acordo com a ONU, são dois milhões de pessoas desnutridas (300 mil correndo risco iminente de morte), mais de um milhão de refugiados em países vizinhos, outro milhão de pessoas obrigadas a abandonar suas residências e vagarem sem rumo em busca de refúgio, à mercê das milícias paramilitares de extermínio.O governo sudanês financia e dá guarida a esquadrões da morte que incendeiam aldeias, praticam estupros coletivos e já escravizaram meio milhão de crianças.Desde os massacres etnocidas de Ruanda em 1994 e da Iugoslávia de Melosevic não se via uma campanha de extermínio destas proporções.
Pois bem, o Conselho de Segurança da ONU está debatendo a questão, se decide ou não impor sanções econômicas ao regime que patrocina a limpeza étnica.Esta é uma causa inatacável, não? Condenar um extermínio de vidas sempre vale a pena, certo? Não para determinadas alas da esquerda brasileira e mundial.A esquerda brasileira, empoleirada no governo e na diplomacia, pretende embargar a proposta americana de impor sanções econômicas ao Sudão.E bastou os americanos anunciarem que “vão tomar providências”, com ou sem a ajuda da ONU, para vozes revoltadas se levantarem contra o “abuso e a prepotência americana de serem os senhores do mundo, intervindo na soberania das outras nações”.Está claro aonde esse raciocínio leva: a soberania é um bem inalienável, mais até do que a vida.Quem esses arrogantes americanos pensam que são para impedir que o governo soberano do Sudão estupre mulheres, extermine pessoas e escravize crianças? Onde já se viu tamanho absurdo?
Nojento esse pensamento, não? Pois não se surpreenda, não é a primeira vez que a esquerda se alia a esquadrões da morte e regimes assassinos.Protestaram contra os bombardeios americanos ao Iraque, interrompendo a soberania de Saddam Hussein de pulverizar seu povo com gás venenoso.Foram contra a intervenção na Somália, a favor do direito inalienável de Aidid de saquear a comida da Cruz Vermelha e matar o povo somali de fome.Defenderam o legítimo direito de Slobodan Melosevic de exterminar croatas e bósnios e organizar orgias macabras, onde mulheres croatas e muçulmanas eram estupradas diante de seus maridos, pais e filhos.E agora, se prontificam a lutar pelo direito do governo do Sudão de exterminar a população negra do sul do país, e de escravizar seus filhos, como, aliás, já o fazem.
Houve um tempo em que eu considerava a esquerda ingênua, com concepções políticas e econômicas erradas, mas sincera em suas intenções humanitárias.Nos últimos dez anos, esses sucessivos apoios a genocidas me fizeram pegar nojo a esse tipo de gente.Segundo os argumentos listados acima, ninguém teria o direito de invadir a Europa e cassar na base da força o direito soberano de Hitler de escravizar e exterminar a população judia da Europa, não é mesmo?
Me enoja o fato de pessoas preferirem ver as posições americanas frustradas do que salvar vidas que estão à mercê de ditadores sanguinários e milícias criminosas de extermínio.Enfim, o que esperar de pessoas que consideram “movimento de luta popular” uma organização que explode uma creche e mata 300 crianças, sob a justificativa de que eram “crianças da elite exploradora”? As FARC vem fazendo isso e muito mais há anos e continuam a merecer o carimbo de “movimento de luta popular”.Haja cegueira e falta de humanidade!
Escrito por João Philippe às 20h05
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METÁFORA PROFUNDA, OBSERVAÇÃO MEDÍOCRE
Como Teresina é uma cidade atrasada sob todos os pontos de vista, o tão falado Dogville, filme do não menos falado Lars Von Trier (o polêmico protagonista do manifesto Dogma 95, que bania o uso de cenários, luz artificial e atores profissionais nos filmes), não passou nem perto dos cinemas daqui, e apenas há duas semanas chegou nas locadoras, sendo disputado a tapa.Finalmente, ontem consegui assisti-lo, e valeu a pena toda a espera: o filme é esplêndido.
Muitos estranham o fato de não haver cenários (a cidade é definida apenas por marcas no chão que indicam ruas e casas), mas é essa a graça do filme: podemos ver diversas cenas ao mesmo tempo: as crianças brincando na rua, a mãe lavando a louça, o cego tateando... A história, para quem não assistiu, é a seguinte: no auge da Grande Depressão dos anos 30, uma moça chega à cidade de Dogville, que tem apenas 15 habitantes, e fica isolada no meio das Montanhas Rochosas, perseguida por gângsters.Um dos moradores, metido a escritor e filósofo, intercede por ela junto à comunidade, que a aceita, mediante o pagamento de alguns serviços.A moça, prestativa, cativa todos, mas com o tempo, os moradores exigem cada vez mais serviços, até chegarem à mais grotesca exploração: ela é insultada, escravizada, estuprada por todos.Até que o tal gângster que a perseguia se revela seu pai, e ela havia então sido enviada para aprender algo sobre o ser humano naquela cidade.
Não foram poucas as pessoas que enxergaram idiotices, como ver o filme como uma crítica ao american way of life, ao capitalismo ou à democracia.Porque Dogville é humana, não americana: poderia se situar em qualquer lugar do planeta. É incrível como a ideologia é capaz de distorcer as coisas, fazendo as pessoas verem tudo através de seu prisma.Mas estes não importam, por mais que eles sejam voltados aos umbigos das próprias ideologias, isso não desmerece o filme.A meu ver, a metáfora vai muito mais fundo do que mera crítica a uma sociedade ou a um modelo econômico.Vai ao centro da civilização ocidental.
Grace, a protagonista, é como se fosse Cristo: ela resolve ir para Dogville para fugir da estrutura familiar gângster, cheia de ódio, e tenta viver com base na doação aos outros e na resignação.Exatamente como a Bíblia conta que Deus mandou seu filho para, através do sofrimento, redimir os homens.Grace tem o mesmo objetivo.Mas ela constata o fracasso de seu plano: as pessoas cada vez mais abusam dela, a prendem, a insultam, a exploram, a estupram... Por fim, seu pai lhe mostra que o sofrimento e o “oferecer a outra face” dela, não fará as pessoas melhores, apenas as incitará a serem ainda mais cruéis.Ela termina por decretar a sentença de morte de Dogville, autorizando os capangas do pai a matarem todos aqueles que a exploraram.
O que torna o filme perturbador é justamente a sua humanidade: como Dogville representa a humanidade, quando ela é exterminada, sentimo-nos todos nós condenados junto com ela.Percebemos que ali estamos expostos nós, em todas as nossas mesquinharias e cruezas.Porque, embora condenemos os habitantes da cidade, sabemos que poderíamos ter agido como eles.Nós percebemos a nossa responsabilidade como seres humanos livres, e o peso que encerra esta responsabilidade.Lars Von Trier envia um novo Cristo à Terra.E este Cristo nos condena.Isso é perturbador.
Escrito por João Philippe às 02h24
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